quinta-feira, 6 de março de 2014

Da prematuridade à eclosão duma sombra

(...)

Hoje a noite marca-se vazia; profundo e ressoante apenas o silêncio que já quase inexiste.
Se a noite carece de amor, por amor ou por dor permanece insólita e fria. Carente de poesia. Carente de mundo e cansada de vida mal vivida. Não vazia, exaurida.

Hoje a noite transfigura-se noutra, menos amarga, dum calor quase acolhedor. Inexpressível e incompreendida, mas agora presente. Hoje a noite toma a forma duma dor que não existe, que não se permite. A forma da dilaceração?

Na noite se apresenta a sombra pouco severa dum dilacerado sem forma. Divagante, pouco errante, amante e vivente. Novamente presente e agora sempre um passo à frente. Sem caos, sem esperança, sem frustração: um soberbo indomado.

Hoje a noite é outra. É das estrelas amarelas e incandescentes, insuficientemente distantes, brilhantes sem o querer de quem as vê. Hoje o vento noturno é genuíno e faz balançar as folhas do pinheiro e o coração de um homem solitário. Mas não sozinho, sem permissão. A solidão exige algo que não se configura já...

Hoje, a noite jaz no aguardo desesperançado do inexistente.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre sentimentos podres e autoperfeição

INTRODUÇÃO

Ao leitor deste texto, requisito uma breve introdução para dois comentários. No primeiro, assinalo a minha dúvida sobre como e onde escrever o que vem abaixo. Pensei, inclusive, em criar um blog novo onde poderia registrar coisas pessoais: mas qual a necessidade de um novo sítio? Poderia fazê-lo tranquilamente com documentos de textos salvos entre as pastas bem organizadas do meu computador (o que também seria perigoso, afinal qualquer um acha qualquer arquivo no meu PC, dada a minha organização... e sim, esta tese já foi confirmada). Veio, ao mesmo tempo, a dúvida sobre qual estilo eu deveria seguir na escrita: se um mais literário e desprendido, tal como tenho feito nos últimos textos, se acadêmico ou se autobiográfico. Decidi apenas escrever, embora acredite que o que irá sair seja algo menos rico em formas linguísticas e mais em conteúdo. Espero, com sinceridade, transparecer o que for possível disto que para mim é algo profundo e esclarecedor.

No segundo comentário, registro a admiração que tenho por pessoas que me tocam profundamente e, dentre estas, por aquelas que o fazem com poucas palavras. Confesso que recentemente precisei ver uma dessas pessoas frente a frente: ficarei triste por não encontrá-la mais com tanta frequência, mas me alegra saber que adquiri a liberdade (ou intimidade) de lhe fazer confissões íntimas e de conversar sobre assuntos pessoais e perturbadores. Afinal de contas, me parece impossível que uma conversa, ou uma música, ou uma poesia, ou qualquer forma de expressão relacionada ao amor seja tranquila o suficiente: sempre haverá uma perturbação, uma agitação, ainda que seja apenas numa respiração mais ofegante ou em uma sutil e breve aceleração dos batimentos cardíacos. Crendo nisso, me espanta como o que foi dito por tal pessoa me tocou tanto, embora não me espante a admiração que se seguiu destas palavras. Não convém, entretanto, divagar sobre estas sem situá-las adequadamente. Dando início à parte mais autobiográfica do texto, sem prever o estilo e esperando que o leitor já tenha identificado, ainda que superficialmente, de que se trata, descrevo o que se passou e se passa nesta cabeça torta.

(Havia também um terceiro a comentário a se fazer, mas lamentavelmente e frustrantemente ele se perdeu nos confins da minha memória. Tal perda não é assim, simplesmente, uma perda: é também um contraexemplo doído às minhas palavras e aos meus elogios...)


AUTO-RELATO SEM ESTILO PREVISTO

Embora goste de registros e confissões, não tenho o intuito de começar um relato pessoal com um "confesso que". Já o fiz outrora e não me julgo negativamente, mas também não quero atribuir ao texto ou ao blog o encargo de um confessionário: que as coisas sejam ditas livre e espontaneamente, sem o chicote do dever de empurrar para fora as palavras.

Pessoas relacionam-se. Pessoas têm sentimentos. Não estou imune à isso, embora às vezes a indiferença social me seja sedutora e embora minha imagem de logicista talvez ainda surja nos confins das fofocas filosóficas londrinenses. Mas que o leitor perdoe o meu narcisismo contido e consciente e também o meu egocentrismo, apenas gostaria de dizer que pego-me às vezes sorrindo, chorando, feliz, triste, alegre, cabisbaixo, amando, odiando, indiferente, vivendo e ora aprendendo, ora não. E me parece natural hoje, que acredito ter me dado conta o suficiente de que sinto, e de que sinto o suficiente, a postura ou ação de aprovar ou reprimir sentimentos.

Não traçarei a etiologia completa desta postura pois me seria impossível esgotá-la em palavras e a memória já me falha. Ela surgiu, entretanto, da constatação de que há ao menos um rumo a ser tomado e de que eu fora curado, nalgum momento, de meu ceticismo avassalador. Entendi que o perfeccionismo é pessoal e que não há mal algum em ter crenças e valores (talvez menos mal do que há em ter crenças e valores impensados, mas apenas talvez). Aceitei que vejo o mundo sob uma perspectiva (a minha) e que não se pode negar que a vida oferece coisas boas. Decidi continuar a viver sem inércia, e nos túneis onde seguia o fluxo da minha vida surgiram luzes. E na junção dessas luzes encontrei uma imagem poderosa: pus em prática, então, um antigo conselho e terminei de moldá-la. E mais: passei acreditar nesta imagem, em sua efetividade, e talvez tenha mesmo passado a amá-la, embora minha modéstia peça apenas para dizer que eu admiro tais e tais modos de ser.

E dentre tais e tais modos de ser, figura o modo daquele que entende e aceita a liberdade das pessoas num distanciamento confortável, seguro e feliz. Pois hoje, vejo que não aceito bem as pessoas como são, não aceito suas ações, seus rompimentos de contratos, suas iras e paixões. Vejo em mim apenas intolerância, conservadorismo, desprezo, ciúmes, inveja, raiva e tantas outras coisas ruins abrandadas apenas pelo meu ceticismo passageiro e pela minha vontade de seguir o rumo da luz.

Destaco, dentre tais sentimentos negativos, o ciúmes, e descrevo na sequência minha crença em sua podridão.

Pois podre é como o ciúmes é chamado por mim sem originalidade visto que, creio, assim o seria caso "O Ciúmes segundo G.K." um dia viesse a ser escrito. E na lama deste sentimento encontrei-me hoje, ontem, por um alguém, por outro, e assim foi. Surpreendentemente, imerso na lama, mal distinguia se o que me causava nojo era a lama, ou eu mesmo, ou o fato de eu estar mergulhado nela. Mas dizer "lama" é leve: há até quem faça terapia com isso. Eu estava mesmo é mergulhado numa piscina de bosta. Merda, da mais suja e fétida e nojenta possível. Quão horrorosa é essa sensação eximo-me do trabalho de descrever e poupo também o leitor do desprazer. Mas daqui, desta minha perspectiva, onde alucinadamente vejo luzes em fins de túneis se fundindo para formar uma autoimagem poderosa e possível que eu talvez ame, enxergo também que a sensação de posse subjaz o ciúmes e se faz presente, com muita frequência, nos relacionamentos humanos.

(A esta altura o leitor pode perceber que o espírito filosófico está encarnando nas palavras. Perdoe-me, ou permita-me falar por nós sem a pretensão de uma verdade universal.)

Muito possivelmente o tema da propriedade mereça não apenas um comentário passageiro num post de blog, mas posts inteiros, artigos, livros e quem sabe uma tese de doutorado. Precisando, indubitavelmente, aparar as pontas desta minha crença que chamo de opinião pré-formulada, apresento-a tão lúcida e frágil e sincera quanto consigo: se entendemos a propriedade como aquilo que não nos pode ser tirado, e aquilo que atribui aos outros o dever de respeitar tal direito, então nós, seres humanos, não possuímos nada ou, para ser ainda mais sincero, possuímos apenas aquilo que se esconde sob a tênue linha que separa o que existe do nada. Se há algum procedimento ou divindade ou teoria que prove, absolutamente, que eu posso chamar qualquer coisa de "minha", ou mais, de "indubitavelmente e exclusivamente minha", então que me seja apresentada ou continuarei minhas dúvidas sobre o possuir.

Entendo, entretanto, que há coisas valiosíssimas escondidas sob essa tênue linha que citei. São elas nossas memórias e nossas vivências: aquilo que somos e que queremos ser, aquilo que sentimos intimamente, que pensamos e que não nos pode ser tirado facilmente.

Pois a experiência mostra que os homens arrancam-se os olhos mas não as lembranças do que foi visto. Roubam-se as mulheres mas permanecem os amores (e as agitações, e as respirações ofegantes e as taquicardias). Quem tira de nós aquilo que tão dificilmente traduzimos ao mundo? Em palavras, em gestos, em vida: quem rouba de nós o íntimo que beira o impossível de ser compartilhado, dado o abismo existente entre eu e a palavra, entre eu e tu, entre tu e os outros e entre todos nós?

E eis aqui uma confissão daquelas que jamais serão vistas em dissertações de doutorado, livros de filosofia e verborragias gananciosas: se creio nesta concepção de propriedade e se assumo que a única coisa que podemos taxar verdadeiramente de nossas são nossas memórias e vivências, dada a sua ligação com nosso íntimo, sua dificuldade em se mostrar aos outros e, principalmente, de nos serem arrancadas como o são diariamente os nossos "pertences", esta crença se deve ao fato de que eu estou, com minhas memórias, numa relação quase que de servidão e submissão. Tenho enorme dificuldade em ordenar meus pensamentos, tenho enorme dificuldade em aceitar que devo ordenar os meus pensamentos e peno com o que se passa na minha cabeça. Confesso, ao leitor, que graças à isso choro e sofro e me sinto dilacerado. Às vezes perco a cabeça; às vezes, para fugir, planto a indiferença e a ignorância, me distraio com a bebida, com Age of Empires, com música ou qualquer tarefa manual. Me é difícil lidar com minhas vivências e memória, e talvez isso se dê ao fato de que esta funciona anormalmente bem. Ela, dentre outras coisas, é causa dos meus surtos e sustos.

Mas nem por isso minhas memórias deixam de ser minhas, e o que me leva a crer que a elas posso chamar de minhas é o fato de não ter encontrado algo que possa ser retirado de mim com a mesma dificuldade. E, se o leitor se cansa já a esta altura do texto, peço desculpas e compreensão: disse no início que tentaria descrever um conteúdo pessoal que para mim é rico, profundo e esclarecedor. Se há dificuldades na leitura é porque as barreiras entre o meu sentir e minhas palavras não foram suficientemente derrubadas, mas talvez isto corrobore a minha tese: de quão meu isto é, e de quão difícil é para mim mesmo retirar de mim e exibir o que considero meu.

Acreditando nisso, consegui retirar um pouco meus olhos e nariz encharcados da bosta fétida do ciúmes e enxergar algumas coisas. Que autoridade tenho eu para chamar qualquer pessoa de minha? Logo eu, que acredito na liberdade da vontade, que odeio contratos mal cumpridos (isto é, cumpridos apenas por inércia ou pelo simples dever de serem cumpridos, sem vontade e sem a motivação legítima que conduziu à sua instauração)? Que poder ou autoridade teria eu para reivindicar a presença de qualquer pessoa a meu lado, e pior, exclusivamente? Nenhuma! Sequer tenho esse desejo e poderia facilmente considerá-lo maligno e até diabólico. Por que, então, deveria eu sofrer em todo aquele fedor e em toda aquela podridão?

O ciúmes é, de fato, um sentimento podre. O ciúmes: este sentimento que, a meu ver, envolve a falsa sensação de que possuímos uma pessoa, de que ela tem para conosco um dever a ser cumprido, a saber, o dever de ser nossa, exclusivamente nossa, ainda que infeliz, carente de amor, seca de vida e sedenta de paixão.

Dei, então, alguns passos à frente em direção à beira do lago podre, ainda atônito mas já enxergando melhor graças à luz de uma memória que se fez presente: recebi, na tarde desta terça-feira, a maravilhosa notícia de que uma pessoa muito importante da minha vida dera um passo decisivo para a realização de seus sonhos pessoais de mais alto nível. E que felicidade genuína eu senti por ela: estaria eu, naquele momento feliz, naquela distância que considerei confortável e segura? Talvez seja apenas uma distância justa, isto é, que faça justiça a tudo o que vivemos e à toda influência que nos exercemos. De qualquer modo, me foi impossível esconder a empolgação, e mesmo sabendo estar ela chamando a outro de "amor", não sofri e não chorei, muito embora minha felicidade por sua conquista quase fosse abrandada não houvesse eu me esforçado em continuar focado na luz, e com os olhos limpos. Agora sorrio por ela, aplaudo e felicito, sem formalidades, sua conquista e sua felicidade.

Por ela já chorei, por ela já escrevi, mas a admirada pessoa que citei no início também estava certa ao dizer que as lembranças vivas e dolorosas do amor morto dariam lugar a lembranças mais felizes, como se caminhassem de um lugar ruim para um lugar bom, cujas portas podem ser abertas sem causar dor a quem abre...

E se posso, genuinamente, ser feliz por ela, porque não posso ser feliz pela felicidade alheia, digo, de qualquer pessoa? Me parece inteligente, portanto, deixar que as pessoas sejam livres como pássaros e deixar que se acomodem umas às outras conforme quiserem e escolherem. Essa deixa, que na verdade é uma aceitação: que amem, que se apaixonem, que vivam intensamente e que façam o que sua bússola do desejo indicar. Aos meus amados e amadas, que sejam felizes e apenas peço que se cuidem. Sequer reivindico presença, sequer reivindico cumprimento de contratos. Sinceridade, apenas, e espontaneidade, mas isso só espero ingenuamente.

Que estar com alguém seja consequência de uma escolha livre: que tal escolha será diária não me restam dúvidas, tampouco que haverão obstáculos dificílimos a serem vencidos, e talvez também haja, como diz Bethânia, um jeito certo de amar, e talvez esse jeito seja apenas beijar a quem se ama, abraçar a quem se gosta e só se doar por paixão...

Agora, mais limpo e com o coração mais calmo, assumo que estou procurando (e talvez aprendendo) como amar, à minha maneira. Assumo também o caráter didático deste auto-relato de estilo imprevisto, e percebo que não estava tão carente de vida e de palavras como pensava estar algumas horas atrás. Então, despeço-me dos leitores sem enfileirar ou denumerar as normas que figuram implícitas nas minhas palavras e nas minhas crenças. Dificulto as coisas para vocês, mas dificulto-as mais para mim: caminhar sobre as pedras e em solos irregulares caleja os pés e fortalece as pernas. Se um dia serei a encarnação daquela imagem mais perfeita que vejo se formar diante de meus olhos não posso agora responder, mas ao que tudo indica, o mundo nunca oferece demais para nossa cabeça, e talvez tudo o que precisemos seja tomar consciência de nossos sentimentos para que posteriormente o conforto, a serenidade de espírito e a força para cuidar de nós mesmos possam se instalar. Afinal, a manutenção de um relacionamento depende muito menos do esforço que despendemos em manter, por exemplo, diálogos forçados e sem sentido, e muito mais do esforço para sermos pessoas diferentes ou melhores, para que tenhamos algo mais, algo que valha a pena ser compartilhado. Ou do esforço para sermos, simplesmente.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Encostos




Que seja uma árvore grande, de raízes profundas, dum terreno suficientemente sólido, que sua sombra seja agradável e que permita um longo cochilo despreocupado sobre e sob suas folhas. Afinal, aquele que quer ver o oco não quer nada além de seguir o ciclo da vida feliz e morrer confortável.

Pensamentos disformes e prematuros

Hoje, a noite marca-se com a falta de lucidez. Serena preguiça de ser, de enxergar e de viver. Com sono e cansaço de nada, com vazio de tudo mas pouco vazio. Com indiferença cega, empatia e felicidade distante, sonho constante, medo do real e do futuro.

Hoje a minha noite delineia-se pouco realista, carente de realidade. Hoje, sem paixão para gritar e para arder, sem dor para sofrer e para reafirmar a vida. Nesta existência monótona, pequena e despreocupada há vida como há fogo na tímida chama que trepida numa vela acesa. Pouca vida, pouca luz que produz muita sombra.

Hoje a noite é cega e perdida sem ver o chão, sem achar sustento no céu, sem ainda o canto dos pássaros que benvindam todo dia recém-nascido. Nesta noite jaz o constante lamentar incompreendido do nada, inalcançável, disforme. Na noite incompreendida jaz o caos que outrora era companhia.

Resta apenas o silêncio mal perturbado: mal se vê o resto.

(...)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O esforço da ordem (ou um texto breve e desordenado para por o leitor em desordem)

Confesso que, hoje, acho desnecessárias todas as minhas tentativas passadas de organizar e enfileirar todos os meus pensamentos de modo a expressá-los de maneira formal e absolutamente inteligível a qualquer jogador meia boca do português. Não é preciso tanto, não agora. Há momentos adequados para exercer a fútil e aclamada formalidade acadêmica, o cacoete filosófico, a verborragia rebuscada e enganadora que nos garante um lugarzinho especial entre os membros da nata intelectual deste mundo. E mais: um futuro promissor entre os doutos filósofos, doutores em coçar o saco - e eu apenas um aprendiz da arte.
Não é preciso tanto, eu estou de férias, coçando-me genuinamente, de modo aceitável, sem enganação. E o caos, que sempre fez chorar os carentes, agora aliado à espontaneidade e ao ócio me é tão belo e sedutor! Não resisto, nem preciso. Nem quero, para ser sincero. Deixe que venha, deixe que se instale e faça da minha existência e das minhas letras a bagunça que quiser.

O caos tem estilo, de fato. Inesperado? Talvez, mas autoconfiante demais. Também não é tudo isso. O caos é um demônio que se cura, facilmente, com pouco ócio e suaves doses contínuas de ateísmo. Não de indiferença, de modo algum! A indiferença e o ceticismo são portas de entrada; uma que fecha é a da ignorância.

Cansa, cansa tanto o barulho do caos que faz sentido a expressão carinhosa de masturbação mental: tanto agito para pô-lo em ordem para, num momento especial, chegar o gozo individual duma conclusão tão obscura e incerta, que antes mesmo de chegar já é fadada a mil adjetivos e a mil considerações. Chega e dura pouco, vai mas não deixa risos ou lágrimas, apenas um ser inútil diante do mundo.

Pois eis que então, destes avanços e recuos desconexos concluo, sem muito gozo, que não vale muito este esforço que a ordem exige. É exigir demais, e eu estou de férias, e na solidão e no ócio o caos me faz companhia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Uma sutil diferença entre o filósofo e o poeta (...)

Talvez (porque falo de mim) o poeta arrisque-se, quando muito, a falar de si, enquanto que o filósofo, ousado, fala por nós. Confesso que falo com frequência por nós, mas também graças à Deus, e reconheço minha ousadia, minha megalomania disfarçada de vício de linguagem. Com isto, peço ao leitor um perdão antecipado ou uma licença para incluir o plural. O perdão inclui ou aceitação, ou indiferença, ou uma distante empatia (ou todos). Já na licença vem não questionada a inquestionável afirmação de que alguém, no mundo, me entende. E só assim me diminui o desconforto: não o de estar sozinho no mundo, mas o de falar por nós.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Palavras de uma criança mal-educada

Se eu tivesse que elencar uma dentre as coisas que mais me incomodam neste blog, eu indicaria a dificuldade que tenho em iniciar um texto. Talvez (e eu digo esse talvez não como uma suposição mas como uma autossabotagem, isto é, como uma tentativa de auto-ilusão de que o que eu vou dizer na sequência não é necessariamente verdade) minha mente seja tão caótica e tão desordenada, e talvez este caos e esta desordem se acentuem tanto com o álcool e com os sentimentos da noite que o momento em que eu não tenho mais escolhas senão desabafar, divagar, falar merdas e deixar registradas as minhas esquisitices e as minhas infantilidades seja inevitável.

Pois este post é dedicado a você, e é exatamente assim (como uma criança) que eu me sinto. Tal é a dilaceração do meu eu que não consigo encontrar a mínima falha em tuas ações. Aprovo-as, aprovo-as todas. Tu estás a fazer exatamente como eu gostaria que tu o fizesses há um mês ou pouco mais.
Acontece que, na falta de um termo melhor ou, mais provavelmente, na falta de um português mais rebuscado (como o teu), carece-me uma palavra mais adequada para classificar-me. E se me chamo "criança" é porque na verdade considero-me um indivíduo muito mal-educado emocionalmente.

(Preciso abrir um parênteses para fazer uma observação, embora tu sejas livre para refutá-la ou ignorála o quanto quiseres. Veja, veja este lado de mim. Este lado obscuro que tu não conhecias e que provavelmente não conheces. Por acaso haveria algum modo de tirar de mim (ou de nós) a razão? Não acredito que conhecias esta faceta do meu ser, ébria demais para deitar-se e dormir e, ao mesmo tempo, sóbria demais para manter-se calada. Dilacerada como uma alma penada, como uma fruta seca pisoteada por mil cascos de mustangues, mal orientada como uma criança que acabara de aprender a andar, que acabara de abrir os olhos para o mundo.)

Pois sim, este sou eu. Uma criança que crê saber o certo, mas que carece: ou de uma crença mais forte, capaz de torná-la íntegra e de expulsar os demônios que atormentam sua mente, ou de um pouco mais de álcool, visto que sente-se menos impelida a escrever o que quer que seja do que há uma hora atrás.
Acredito, piamente, que a falta de álcool seja mais facilmente superada.

Não, eu não a desejo de volta, embora ainda pense em ti e, nos sonhos que rotulo de "mais sujos", ainda a deseje.
Sim, você ocupa a minha mente. Mas por favor, continue sendo quem tu estás a ser. Continue fazendo o que tu estás a fazer, continue a ser feliz como tu me dizes. Ao me dizer isto tu me tranquilizas, muito mais do que tu serias capaz de imaginar.

Eu tenho tantas dúvidas, e às vezes os demônios da minha mente me atormentam tanto que também me é um tormento me convencer de que eles não existem de fato.

É certo, entretanto, que não a amo mais. É certo, também, que tu e também eu, por que não, merecemos o amor.

Sou o único culpado de minha curiosidade e, concomitantemente, culpado pelas palavras que saíram não de minha boca, mas da boca de um amigo em comum.
Desculpe-me se quis saber demais, mas tive de perguntar. Anseio o melhor por ti e, sinceramente, acalma-me a alma saber que não estás a sofrer mais por mim... Acalma-me, acalma-me tanto! Sinto-me responsável pelos teus sentimentos, tu conseguistes entrar o suficiente em minha mente com aquela história de que nos tornamos eternamente responsáveis pelo que cativamos.

Mas não, não chores por mim. Nunca mais.
Não me rebaixo diante de ti, não peço a tua mão de volta.
Se tu me apertasses o bastante ou me conhecesses o suficiente, saberia que, na verdade, sequer tenho motivos sólidos para escrever-te estas palavras.

Ando, se tu quiseres saber, muito mais perdido nos últimos dias do que andei em toda a minha vida. Mas não por culpa tua, e nem o poderia ser. Cheguei mesmo a procurar (agora) dentre os e-mails e posts de facebook e deste blog uma definição capaz de abranger tal perdição, mas a busca foi vã. E ainda que não queiras saber, explico genericamente: careço, definitivamente, de qualquer valor que tu possas imaginar. Não bato martelo algum, sou empático e, ao mesmo tempo, indiferente a tudo e a todos. O perspectivismo e o ceticismo pegaram-me pouco prevenido e levaram consigo o meu chão. Não, não nego mais o teu aborto que tu tanto erguias (e talvez ainda ergas) a bandeira. Não nego penas de morte, não nego assassinatos por pura vingança. Não considero piores as paixões desenfreadas e as ações mal instruídas. Entendo as pessoas num distanciamento que me é ao mesmo tempo confortável e frágil.

Sim, sinto-me extremamente frágil. Tu sabes o quanto fui sensível, mas isso se intensificou nos últimos dias. Não ouço a música, nem as pessoas, nem o mundo que me cerca com os mesmos ouvidos. Não vejo nada com os mesmos olhos: na verdade, parece que, até há pouco, não enxergava nada. Sinto que meu coração não bate à toa, sinto que minha vivência não é apenas um acaso e que, ainda que isto seja autossabotagem, estou tão excitado em mergulhar no mundo e viver. E conhecer, e absorver tudo quanto possível.. Nunca as notas do meu celular estiveram tão lotadas, e nunca em meu notebook figuraram indicações de livros de poesia.

Perdoe-me se divago. Mas acredito que, se tu és capaz de perdoar-me por mil coisas que já fiz, também serás capaz de perdoar o meu ser prolixo.
Apenas senti saudade e vontade de escrever-te, na impossibilidade (imposta a mim por mim mesmo) de te ver.

Desejo o melhor para ti, do fundo do meu coração dilacerado,
do fundo do meu ser que caminha sem solo firme por este mundo tão plural e tão rico em coisas férteis e inúteis.
Desejo que continues a ser feliz como estás a ser, e espero que realmente o estejas a ser. E se tais palavras preocuparam-na, despreocupe-se: a maturidade um dia há de fazer morada em meu caráter.

E ainda acho que tenho um mínimo de intimidade para despedir-me de ti assim, pela última vez, com
um beijo. E uma lágrima escondida sob o nó de minha garganta.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

On Wings of Destiny


Day has gone but I'm still here with you
my sweet rose my green hills
beloved sea, lakes and sky
beloved mother earth

Silent land erase my thoughts
I wanna lose myself in you, all in you
caress me and my soul while I close my eyes

On wings of destiny
through virgin skies
to far horizons I will fly

Dear peaceful land, dear mother earth
caress my soul while I close my eyes

On wings of destiny
through virgin skies
to far horizons I will fly


http://www.youtube.com/watch?v=NVbJwOp7xBs

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Divagações sobre a simplicidade, a erudição e o ato de mandar tudo se foder

Querido mundo.

Às vezes tenho vontade de dizer "me desculpe por frustrá-lo", "eu não sou assim, nem sou tudo isso", "você devia esperar menos de mim"; às vezes, quero mandá-lo tomar no cu.

Seria uma mentira afirmar que tenho adotado a postura do "foda-se!"-nas minhas atitudes recentemente, mas tenho tentado entendê-la. E é claro que esta tentativa de entendimento pode também ser um pecado, afinal não só existem coisas incompreensíveis mas também aquelas que não devemos despender esforço algum para compreendê-las. Na incapacidade de enquadrar o "foda-se!" na primeira ou na segunda categoria, busco desconfiante e esperançoso alguma luz que me atraia para tal postura, visto que admiro-a.

E se estou desconfiado, é porque o "foda-se!" é uma postura simples demais e talvez intangível aos espíritos eruditos, filosóficos e insensíveis do século XXI (graças à sorte e à juventude ainda estou livre desta desgraça!). É um ato espontâneo e quase impensado, momentâneo e conclusivo. Desgostam da tua roupa? Condenam as tuas atitudes? Frustrastes as expectativas alheias? Falhastes como amigo, namorado, amante, ficante, estudante, professor, filho, companheiro de quarto, músico, filósofo, escritor, poeta e jogador de vários jogos?

Não sei se tenho pena de mim ou do mundo, ou se eu e os outros e as coisas somos apenas uns fodidos largados às traças, abandonados nesta putaria desordenada e nem-sempre-sem-sentido que chamamos de vida. Mas seria pedir muito para que o mundo entendesse o "foda-se!". O mundo não entende nada, o mundo é conservador e ditador, quer as coisas a seu modo, esconde preciosidades e impõe implicitamente as regras que você demora anos pra tornar nítidas pra você, e tudo isso pra quê? Pra que elas lhe sejam cuspidas na cara de novo, menos impiedosas e nem por isso mais frágeis. E é aí que você pensa: eu era feliz naquela merda de vida inconsciente e inocente que eu levava. Eu era feliz acreditando no certo e no errado, na bondade dos seres humanos, na felicidade escondida num balde de long necks que o pobre garçom traz às três horas da manhã, e também na ressaca e na conversa com os amigos que relembram a balada da noite anterior.
Eu era feliz acreditando que devia comer todo mundo e ser feliz para sempre, e fui feliz depois quando entendi (aleluia, graças à Deus e aos anjos) que a felicidade residia em fazer uma única pessoa feliz para o resto dos dias, ainda que isso fosse praticamente impossível e que custasse toda minha energia. Talvez eu fosse feliz assim, sem saber, sem enxergar, e especialmente sem pensar.

Mas, se me perguntassem agora: "Danilo, o que você tem a declarar?", eu, um pouco suado e ofegante, diria que foda-se. Assim mesmo, sem ponto de exclamação, sem tanto vigor, como um suspiro solto após um longo dia de trabalho. É isso mesmo. Foda-se. Eu estou cansado.

Talvez (eu supondo, mais uma vez), as merdas sempre comecem quando começamos a pensar demais. Too much blood in your brain, you know. Há um contato com a simplicidade e com as pulsões primitivas (alguns dizem naturais) que se perde neste momento: um brinde de água suja à sapiência do Homo que se esquece como ser um animal! Isto é tautológico: a admiração irrefletida termina quando inicia a reflexão, e a simplicidade com a erudição. Para-se a dança, a jam, a caça, o beijo, a contemplação estética: o sendo torna-se sido para dar lugar aos juízos e às indagações. E se é a isso que se resumem as minhas vivências e se é a isso que estou preso, mas que grande merda de vida é a minha! Preferiria mil vezes eu ter nascido um cachorro: eu viveria livremente, ainda que preso às correntes de minhas pulsões de sobrevivência e de prazer.

Mas aparentemente há muita força no "foda-se!", e essas indagações não são incômodas por si mesmas, mas o são porque estão deslocadas. Surgem em momentos desnecessários, inesperados e não são bem-vindas como as chuvas de verão em fins de tardes ensolaradas. Todas elas, entretanto, farão sentido, terão razão de existir e justificarão sua presença neste blog se me conduzirem de volta à primitividade, à simplicidade, à admiração não erudita e compulsória, à irreflexão e à contemplação imediata. Devolvam-me a vida que eu quero levar! Conduzam-me novamente ao estado do qual não gostaria de ter saído! Corrijo: vocês existem para ordenar o meu mundo, não para me dilacerar e incomodar; vocês mandaram bem quando me apresentaram o lado B da vida, o lado não ditador e não conservador, o lado sem regras e caótico e também o que está além da ordem e do caos, mas sumam da minha cabeça! Preciso endireitá-la, e se para garantir tal retidão eu precisar optar ou pela erudição ou pela rusticidade, eu opto pela segunda! E foda-se!

[Aguardando a ambiguidade do título tornar-se voluntária]

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre as coisas que sustentam as "verdades" do mundo

Me incomodam as "verdades" do mundo.
Me incomoda a história, a lógica e mesmo a filosofia. Me incomoda a psicologia, a sociologia e as ciências de um modo geral.
Me incomoda o determinismo, a religião e também o ceticismo.
Me incomodam as verdades do mundo.

Existe uma tendência difundida implicitamente entre os humanos, quase como uma religião ou uma conspiração demoníaca, de buscar causas para tudo. Procuramos fechar todos os elos da cadeia, preencher todas as variáveis com constantes conhecidas de vários tipos: observáveis, fantasiosas, dogmáticas. Queremos porque queremos entender tudo, esgotar a infinidade do universo e da existência e colocá-la na palma de nossa mão para dizer: "Eu sei! Esta é a verdade!" Mas que verdade está isenta do perspectivismo?

Não é rara a idolatração e a busca por essa "verdade" ou mesmo por esse "método que conduz à verdade". Encaixamos as nossas vivências numa maneira de enxergar o mundo: essa é a nossa vida. Mas não necessitamos, por mais racionais, evoluídos, supremos e absolutos senhores da sapiência e da sabedoria acreditar, em todos os momentos, que essa explicação, método, instrumento ou coisa (doravante sempre coisa) é universal, una, infinita, válida e verdadeira, que encontramos o tão famigerado "ponto de Arquimedes" que sustenta e esgota a vida, a existência, a consciência, os objetos, os fenômenos, o universo, o infinito, a ordem e o caos.




Nozick, embora ingênuo por conferir existência, realidade e verdade à uma entidade fantasiosa, teve alguns insights geniais. Que necessidade a nossa de fechar tudo num pacote, de amarrar todas as pontas, de purificá-lo, desbastando todas as pontas soltas, lixando-o, pintando-o com as cores que queremos que ele tenha (e não com as cores que vemos) para, no fim, encontramos a melhor perspectiva, tirar uma foto e mostrar aos outros! Mas que bela obra de arte e que bela autossabotagem a nossa!

Pergunto-me, às vezes, se precisamos realmente entender todas as coisas do universo. Se precisamos explicar todas as nossas ações, comportamentos, caracteres e estados usando a conexão entre causa e efeito, a lógica, a metodologia científica ou qualquer outra coisa ou coisas. Antes de fazermos tais inferências, não seria mais plausível indagar sobre a extensão e a fertilidade desses instrumentos, desses gêneros parciais, isolados, geniais da própria perspectiva mas também ingênuos modos de possuir o mundo?

Pelo que vejo os humanos são, por sua vez, demasiado pretensiosos e poucos se dão conta disso. São preciosos, caprichosos e orgulhosos demais para aceitar sua inferioridade, quiçá a ordinariedade desses instrumentos que utilizam para enxergar o mundo à sua volta. Se é que enxergam: parece-me, às vezes, que jogam muito mais luz às coisas que os cercam do que deixam a luz dessas coisas atingir seus olhos e agitar o seu espírito. Uma herança copernicana e kantiana, iluminadora demais e iluminada de menos. Escrevem livros sobre "A Estrutura Lógica do Mundo", sobre a "Fenomenologia Transcedental", discordam infinitamente sobre o conteúdo de suas proposições mas sempre dizem: isto é assim; isto é assado!

Particularmente, assumo que mesmo estas verdades, ou instrumentos, ou pontos arquimedianos, ou simplesmente coisas são necessárias e que, às vezes, apoio-me nelas como que por instinto, por convenção, por inércia ou mesmo sem razão (quão irônico seria eu agora buscando as razões pela qual me apoio nestas coisas). E embora eu me enxergue nesse estado que considero ingênuo e soberbo, tal fato nem sempre me traz incerteza e insegurança, não dilacera o meu espírito e não destrói as minhas razões de existir. "Está é a vida", digo eu pra mim mesmo. Sigo em frente no corredor da vida apoiando-me nas colunas mais frágeis e nas paredes mais tensas (porque talvez não existam paredes e colunas firmes para se apoiar, mas quem se importa?). Não sei se são necessários tais encostos, mas minha existência não prescinde deles. Não agora, e nem sei se no futuro: ausento-me da tarefa divina de me impor o dever de abstinência das coisas. Entretanto, às vezes também creio serem elas desnecessárias, e ridícula e demasiado pretensiosa essa postura de pôr tudo na palma da mão. Por que não sentir antes de tentar entender? Antes de buscar ordem, por que não vivenciar o ordenamento e o caos? Antes das razões para a existência, dos deveres e da prescrição do perfeito, por que não a dilaceração da alma, a imoralidade, a perplexidade e a liberdade? Por isso não me incomoda a música e a poesia que tão recentemente abri os meus olhos. Por isso não me incomoda a arte, a literatura, o simples viver, a existência irrefletida, a natureza, os animais, o mundo tal como ele é: cheio de vida e de inesgotáveis sublimidades que perpassam todos esses nossos instrumentos chulos de tentar entender e possuir a existência e a verdade.