quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Pensamentos disformes e prematuros

Hoje, a noite marca-se com a falta de lucidez. Serena preguiça de ser, de enxergar e de viver. Com sono e cansaço de nada, com vazio de tudo mas pouco vazio. Com indiferença cega, empatia e felicidade distante, sonho constante, medo do real e do futuro.

Hoje a minha noite delineia-se pouco realista, carente de realidade. Hoje, sem paixão para gritar e para arder, sem dor para sofrer e para reafirmar a vida. Nesta existência monótona, pequena e despreocupada há vida como há fogo na tímida chama que trepida numa vela acesa. Pouca vida, pouca luz que produz muita sombra.

Hoje a noite é cega e perdida sem ver o chão, sem achar sustento no céu, sem ainda o canto dos pássaros que benvindam todo dia recém-nascido. Nesta noite jaz o constante lamentar incompreendido do nada, inalcançável, disforme. Na noite incompreendida jaz o caos que outrora era companhia.

Resta apenas o silêncio mal perturbado: mal se vê o resto.

(...)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O esforço da ordem (ou um texto breve e desordenado para por o leitor em desordem)

Confesso que, hoje, acho desnecessárias todas as minhas tentativas passadas de organizar e enfileirar todos os meus pensamentos de modo a expressá-los de maneira formal e absolutamente inteligível a qualquer jogador meia boca do português. Não é preciso tanto, não agora. Há momentos adequados para exercer a fútil e aclamada formalidade acadêmica, o cacoete filosófico, a verborragia rebuscada e enganadora que nos garante um lugarzinho especial entre os membros da nata intelectual deste mundo. E mais: um futuro promissor entre os doutos filósofos, doutores em coçar o saco - e eu apenas um aprendiz da arte.
Não é preciso tanto, eu estou de férias, coçando-me genuinamente, de modo aceitável, sem enganação. E o caos, que sempre fez chorar os carentes, agora aliado à espontaneidade e ao ócio me é tão belo e sedutor! Não resisto, nem preciso. Nem quero, para ser sincero. Deixe que venha, deixe que se instale e faça da minha existência e das minhas letras a bagunça que quiser.

O caos tem estilo, de fato. Inesperado? Talvez, mas autoconfiante demais. Também não é tudo isso. O caos é um demônio que se cura, facilmente, com pouco ócio e suaves doses contínuas de ateísmo. Não de indiferença, de modo algum! A indiferença e o ceticismo são portas de entrada; uma que fecha é a da ignorância.

Cansa, cansa tanto o barulho do caos que faz sentido a expressão carinhosa de masturbação mental: tanto agito para pô-lo em ordem para, num momento especial, chegar o gozo individual duma conclusão tão obscura e incerta, que antes mesmo de chegar já é fadada a mil adjetivos e a mil considerações. Chega e dura pouco, vai mas não deixa risos ou lágrimas, apenas um ser inútil diante do mundo.

Pois eis que então, destes avanços e recuos desconexos concluo, sem muito gozo, que não vale muito este esforço que a ordem exige. É exigir demais, e eu estou de férias, e na solidão e no ócio o caos me faz companhia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Uma sutil diferença entre o filósofo e o poeta (...)

Talvez (porque falo de mim) o poeta arrisque-se, quando muito, a falar de si, enquanto que o filósofo, ousado, fala por nós. Confesso que falo com frequência por nós, mas também graças à Deus, e reconheço minha ousadia, minha megalomania disfarçada de vício de linguagem. Com isto, peço ao leitor um perdão antecipado ou uma licença para incluir o plural. O perdão inclui ou aceitação, ou indiferença, ou uma distante empatia (ou todos). Já na licença vem não questionada a inquestionável afirmação de que alguém, no mundo, me entende. E só assim me diminui o desconforto: não o de estar sozinho no mundo, mas o de falar por nós.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Palavras de uma criança mal-educada

Se eu tivesse que elencar uma dentre as coisas que mais me incomodam neste blog, eu indicaria a dificuldade que tenho em iniciar um texto. Talvez (e eu digo esse talvez não como uma suposição mas como uma autossabotagem, isto é, como uma tentativa de auto-ilusão de que o que eu vou dizer na sequência não é necessariamente verdade) minha mente seja tão caótica e tão desordenada, e talvez este caos e esta desordem se acentuem tanto com o álcool e com os sentimentos da noite que o momento em que eu não tenho mais escolhas senão desabafar, divagar, falar merdas e deixar registradas as minhas esquisitices e as minhas infantilidades seja inevitável.

Pois este post é dedicado a você, e é exatamente assim (como uma criança) que eu me sinto. Tal é a dilaceração do meu eu que não consigo encontrar a mínima falha em tuas ações. Aprovo-as, aprovo-as todas. Tu estás a fazer exatamente como eu gostaria que tu o fizesses há um mês ou pouco mais.
Acontece que, na falta de um termo melhor ou, mais provavelmente, na falta de um português mais rebuscado (como o teu), carece-me uma palavra mais adequada para classificar-me. E se me chamo "criança" é porque na verdade considero-me um indivíduo muito mal-educado emocionalmente.

(Preciso abrir um parênteses para fazer uma observação, embora tu sejas livre para refutá-la ou ignorála o quanto quiseres. Veja, veja este lado de mim. Este lado obscuro que tu não conhecias e que provavelmente não conheces. Por acaso haveria algum modo de tirar de mim (ou de nós) a razão? Não acredito que conhecias esta faceta do meu ser, ébria demais para deitar-se e dormir e, ao mesmo tempo, sóbria demais para manter-se calada. Dilacerada como uma alma penada, como uma fruta seca pisoteada por mil cascos de mustangues, mal orientada como uma criança que acabara de aprender a andar, que acabara de abrir os olhos para o mundo.)

Pois sim, este sou eu. Uma criança que crê saber o certo, mas que carece: ou de uma crença mais forte, capaz de torná-la íntegra e de expulsar os demônios que atormentam sua mente, ou de um pouco mais de álcool, visto que sente-se menos impelida a escrever o que quer que seja do que há uma hora atrás.
Acredito, piamente, que a falta de álcool seja mais facilmente superada.

Não, eu não a desejo de volta, embora ainda pense em ti e, nos sonhos que rotulo de "mais sujos", ainda a deseje.
Sim, você ocupa a minha mente. Mas por favor, continue sendo quem tu estás a ser. Continue fazendo o que tu estás a fazer, continue a ser feliz como tu me dizes. Ao me dizer isto tu me tranquilizas, muito mais do que tu serias capaz de imaginar.

Eu tenho tantas dúvidas, e às vezes os demônios da minha mente me atormentam tanto que também me é um tormento me convencer de que eles não existem de fato.

É certo, entretanto, que não a amo mais. É certo, também, que tu e também eu, por que não, merecemos o amor.

Sou o único culpado de minha curiosidade e, concomitantemente, culpado pelas palavras que saíram não de minha boca, mas da boca de um amigo em comum.
Desculpe-me se quis saber demais, mas tive de perguntar. Anseio o melhor por ti e, sinceramente, acalma-me a alma saber que não estás a sofrer mais por mim... Acalma-me, acalma-me tanto! Sinto-me responsável pelos teus sentimentos, tu conseguistes entrar o suficiente em minha mente com aquela história de que nos tornamos eternamente responsáveis pelo que cativamos.

Mas não, não chores por mim. Nunca mais.
Não me rebaixo diante de ti, não peço a tua mão de volta.
Se tu me apertasses o bastante ou me conhecesses o suficiente, saberia que, na verdade, sequer tenho motivos sólidos para escrever-te estas palavras.

Ando, se tu quiseres saber, muito mais perdido nos últimos dias do que andei em toda a minha vida. Mas não por culpa tua, e nem o poderia ser. Cheguei mesmo a procurar (agora) dentre os e-mails e posts de facebook e deste blog uma definição capaz de abranger tal perdição, mas a busca foi vã. E ainda que não queiras saber, explico genericamente: careço, definitivamente, de qualquer valor que tu possas imaginar. Não bato martelo algum, sou empático e, ao mesmo tempo, indiferente a tudo e a todos. O perspectivismo e o ceticismo pegaram-me pouco prevenido e levaram consigo o meu chão. Não, não nego mais o teu aborto que tu tanto erguias (e talvez ainda ergas) a bandeira. Não nego penas de morte, não nego assassinatos por pura vingança. Não considero piores as paixões desenfreadas e as ações mal instruídas. Entendo as pessoas num distanciamento que me é ao mesmo tempo confortável e frágil.

Sim, sinto-me extremamente frágil. Tu sabes o quanto fui sensível, mas isso se intensificou nos últimos dias. Não ouço a música, nem as pessoas, nem o mundo que me cerca com os mesmos ouvidos. Não vejo nada com os mesmos olhos: na verdade, parece que, até há pouco, não enxergava nada. Sinto que meu coração não bate à toa, sinto que minha vivência não é apenas um acaso e que, ainda que isto seja autossabotagem, estou tão excitado em mergulhar no mundo e viver. E conhecer, e absorver tudo quanto possível.. Nunca as notas do meu celular estiveram tão lotadas, e nunca em meu notebook figuraram indicações de livros de poesia.

Perdoe-me se divago. Mas acredito que, se tu és capaz de perdoar-me por mil coisas que já fiz, também serás capaz de perdoar o meu ser prolixo.
Apenas senti saudade e vontade de escrever-te, na impossibilidade (imposta a mim por mim mesmo) de te ver.

Desejo o melhor para ti, do fundo do meu coração dilacerado,
do fundo do meu ser que caminha sem solo firme por este mundo tão plural e tão rico em coisas férteis e inúteis.
Desejo que continues a ser feliz como estás a ser, e espero que realmente o estejas a ser. E se tais palavras preocuparam-na, despreocupe-se: a maturidade um dia há de fazer morada em meu caráter.

E ainda acho que tenho um mínimo de intimidade para despedir-me de ti assim, pela última vez, com
um beijo. E uma lágrima escondida sob o nó de minha garganta.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

On Wings of Destiny


Day has gone but I'm still here with you
my sweet rose my green hills
beloved sea, lakes and sky
beloved mother earth

Silent land erase my thoughts
I wanna lose myself in you, all in you
caress me and my soul while I close my eyes

On wings of destiny
through virgin skies
to far horizons I will fly

Dear peaceful land, dear mother earth
caress my soul while I close my eyes

On wings of destiny
through virgin skies
to far horizons I will fly


http://www.youtube.com/watch?v=NVbJwOp7xBs

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Divagações sobre a simplicidade, a erudição e o ato de mandar tudo se foder

Querido mundo.

Às vezes tenho vontade de dizer "me desculpe por frustrá-lo", "eu não sou assim, nem sou tudo isso", "você devia esperar menos de mim"; às vezes, quero mandá-lo tomar no cu.

Seria uma mentira afirmar que tenho adotado a postura do "foda-se!"-nas minhas atitudes recentemente, mas tenho tentado entendê-la. E é claro que esta tentativa de entendimento pode também ser um pecado, afinal não só existem coisas incompreensíveis mas também aquelas que não devemos despender esforço algum para compreendê-las. Na incapacidade de enquadrar o "foda-se!" na primeira ou na segunda categoria, busco desconfiante e esperançoso alguma luz que me atraia para tal postura, visto que admiro-a.

E se estou desconfiado, é porque o "foda-se!" é uma postura simples demais e talvez intangível aos espíritos eruditos, filosóficos e insensíveis do século XXI (graças à sorte e à juventude ainda estou livre desta desgraça!). É um ato espontâneo e quase impensado, momentâneo e conclusivo. Desgostam da tua roupa? Condenam as tuas atitudes? Frustrastes as expectativas alheias? Falhastes como amigo, namorado, amante, ficante, estudante, professor, filho, companheiro de quarto, músico, filósofo, escritor, poeta e jogador de vários jogos?

Não sei se tenho pena de mim ou do mundo, ou se eu e os outros e as coisas somos apenas uns fodidos largados às traças, abandonados nesta putaria desordenada e nem-sempre-sem-sentido que chamamos de vida. Mas seria pedir muito para que o mundo entendesse o "foda-se!". O mundo não entende nada, o mundo é conservador e ditador, quer as coisas a seu modo, esconde preciosidades e impõe implicitamente as regras que você demora anos pra tornar nítidas pra você, e tudo isso pra quê? Pra que elas lhe sejam cuspidas na cara de novo, menos impiedosas e nem por isso mais frágeis. E é aí que você pensa: eu era feliz naquela merda de vida inconsciente e inocente que eu levava. Eu era feliz acreditando no certo e no errado, na bondade dos seres humanos, na felicidade escondida num balde de long necks que o pobre garçom traz às três horas da manhã, e também na ressaca e na conversa com os amigos que relembram a balada da noite anterior.
Eu era feliz acreditando que devia comer todo mundo e ser feliz para sempre, e fui feliz depois quando entendi (aleluia, graças à Deus e aos anjos) que a felicidade residia em fazer uma única pessoa feliz para o resto dos dias, ainda que isso fosse praticamente impossível e que custasse toda minha energia. Talvez eu fosse feliz assim, sem saber, sem enxergar, e especialmente sem pensar.

Mas, se me perguntassem agora: "Danilo, o que você tem a declarar?", eu, um pouco suado e ofegante, diria que foda-se. Assim mesmo, sem ponto de exclamação, sem tanto vigor, como um suspiro solto após um longo dia de trabalho. É isso mesmo. Foda-se. Eu estou cansado.

Talvez (eu supondo, mais uma vez), as merdas sempre comecem quando começamos a pensar demais. Too much blood in your brain, you know. Há um contato com a simplicidade e com as pulsões primitivas (alguns dizem naturais) que se perde neste momento: um brinde de água suja à sapiência do Homo que se esquece como ser um animal! Isto é tautológico: a admiração irrefletida termina quando inicia a reflexão, e a simplicidade com a erudição. Para-se a dança, a jam, a caça, o beijo, a contemplação estética: o sendo torna-se sido para dar lugar aos juízos e às indagações. E se é a isso que se resumem as minhas vivências e se é a isso que estou preso, mas que grande merda de vida é a minha! Preferiria mil vezes eu ter nascido um cachorro: eu viveria livremente, ainda que preso às correntes de minhas pulsões de sobrevivência e de prazer.

Mas aparentemente há muita força no "foda-se!", e essas indagações não são incômodas por si mesmas, mas o são porque estão deslocadas. Surgem em momentos desnecessários, inesperados e não são bem-vindas como as chuvas de verão em fins de tardes ensolaradas. Todas elas, entretanto, farão sentido, terão razão de existir e justificarão sua presença neste blog se me conduzirem de volta à primitividade, à simplicidade, à admiração não erudita e compulsória, à irreflexão e à contemplação imediata. Devolvam-me a vida que eu quero levar! Conduzam-me novamente ao estado do qual não gostaria de ter saído! Corrijo: vocês existem para ordenar o meu mundo, não para me dilacerar e incomodar; vocês mandaram bem quando me apresentaram o lado B da vida, o lado não ditador e não conservador, o lado sem regras e caótico e também o que está além da ordem e do caos, mas sumam da minha cabeça! Preciso endireitá-la, e se para garantir tal retidão eu precisar optar ou pela erudição ou pela rusticidade, eu opto pela segunda! E foda-se!

[Aguardando a ambiguidade do título tornar-se voluntária]

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre as coisas que sustentam as "verdades" do mundo

Me incomodam as "verdades" do mundo.
Me incomoda a história, a lógica e mesmo a filosofia. Me incomoda a psicologia, a sociologia e as ciências de um modo geral.
Me incomoda o determinismo, a religião e também o ceticismo.
Me incomodam as verdades do mundo.

Existe uma tendência difundida implicitamente entre os humanos, quase como uma religião ou uma conspiração demoníaca, de buscar causas para tudo. Procuramos fechar todos os elos da cadeia, preencher todas as variáveis com constantes conhecidas de vários tipos: observáveis, fantasiosas, dogmáticas. Queremos porque queremos entender tudo, esgotar a infinidade do universo e da existência e colocá-la na palma de nossa mão para dizer: "Eu sei! Esta é a verdade!" Mas que verdade está isenta do perspectivismo?

Não é rara a idolatração e a busca por essa "verdade" ou mesmo por esse "método que conduz à verdade". Encaixamos as nossas vivências numa maneira de enxergar o mundo: essa é a nossa vida. Mas não necessitamos, por mais racionais, evoluídos, supremos e absolutos senhores da sapiência e da sabedoria acreditar, em todos os momentos, que essa explicação, método, instrumento ou coisa (doravante sempre coisa) é universal, una, infinita, válida e verdadeira, que encontramos o tão famigerado "ponto de Arquimedes" que sustenta e esgota a vida, a existência, a consciência, os objetos, os fenômenos, o universo, o infinito, a ordem e o caos.




Nozick, embora ingênuo por conferir existência, realidade e verdade à uma entidade fantasiosa, teve alguns insights geniais. Que necessidade a nossa de fechar tudo num pacote, de amarrar todas as pontas, de purificá-lo, desbastando todas as pontas soltas, lixando-o, pintando-o com as cores que queremos que ele tenha (e não com as cores que vemos) para, no fim, encontramos a melhor perspectiva, tirar uma foto e mostrar aos outros! Mas que bela obra de arte e que bela autossabotagem a nossa!

Pergunto-me, às vezes, se precisamos realmente entender todas as coisas do universo. Se precisamos explicar todas as nossas ações, comportamentos, caracteres e estados usando a conexão entre causa e efeito, a lógica, a metodologia científica ou qualquer outra coisa ou coisas. Antes de fazermos tais inferências, não seria mais plausível indagar sobre a extensão e a fertilidade desses instrumentos, desses gêneros parciais, isolados, geniais da própria perspectiva mas também ingênuos modos de possuir o mundo?

Pelo que vejo os humanos são, por sua vez, demasiado pretensiosos e poucos se dão conta disso. São preciosos, caprichosos e orgulhosos demais para aceitar sua inferioridade, quiçá a ordinariedade desses instrumentos que utilizam para enxergar o mundo à sua volta. Se é que enxergam: parece-me, às vezes, que jogam muito mais luz às coisas que os cercam do que deixam a luz dessas coisas atingir seus olhos e agitar o seu espírito. Uma herança copernicana e kantiana, iluminadora demais e iluminada de menos. Escrevem livros sobre "A Estrutura Lógica do Mundo", sobre a "Fenomenologia Transcedental", discordam infinitamente sobre o conteúdo de suas proposições mas sempre dizem: isto é assim; isto é assado!

Particularmente, assumo que mesmo estas verdades, ou instrumentos, ou pontos arquimedianos, ou simplesmente coisas são necessárias e que, às vezes, apoio-me nelas como que por instinto, por convenção, por inércia ou mesmo sem razão (quão irônico seria eu agora buscando as razões pela qual me apoio nestas coisas). E embora eu me enxergue nesse estado que considero ingênuo e soberbo, tal fato nem sempre me traz incerteza e insegurança, não dilacera o meu espírito e não destrói as minhas razões de existir. "Está é a vida", digo eu pra mim mesmo. Sigo em frente no corredor da vida apoiando-me nas colunas mais frágeis e nas paredes mais tensas (porque talvez não existam paredes e colunas firmes para se apoiar, mas quem se importa?). Não sei se são necessários tais encostos, mas minha existência não prescinde deles. Não agora, e nem sei se no futuro: ausento-me da tarefa divina de me impor o dever de abstinência das coisas. Entretanto, às vezes também creio serem elas desnecessárias, e ridícula e demasiado pretensiosa essa postura de pôr tudo na palma da mão. Por que não sentir antes de tentar entender? Antes de buscar ordem, por que não vivenciar o ordenamento e o caos? Antes das razões para a existência, dos deveres e da prescrição do perfeito, por que não a dilaceração da alma, a imoralidade, a perplexidade e a liberdade? Por isso não me incomoda a música e a poesia que tão recentemente abri os meus olhos. Por isso não me incomoda a arte, a literatura, o simples viver, a existência irrefletida, a natureza, os animais, o mundo tal como ele é: cheio de vida e de inesgotáveis sublimidades que perpassam todos esses nossos instrumentos chulos de tentar entender e possuir a existência e a verdade.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Por que tentar ter o mundo na palma das mãos?

"A falsa ilusão de que o destino da vida está assegurado em nossas mãos é que cria espaço para a culpa."

http://papodehomem.com.br/os-mecanismos-da-culpa-id-8/

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Caos Vespertino

Há coisas que passam pela cabeça dos homens capazes de fazê-los ficarem acordados por dias. Há coisas, do mesmo tipo, que os impedem de tirar seu cochilo vespertino. São tantos os acontecimentos e sentimentos que muitas vezes divagações são necessárias. A esse fenômeno os filósofos dão o nome de catarse, o ato de vomitar ao mundo todas as indecências, o descontrole, os desentendimentos interiores. Dilacerações.

Que se passa na cabeça de um homem quando pensa em seu futuro? Quando pensa em se mudar, em seus amigos, família, namorada, faculdade. Quando pensa no que fez e no que poderá fazer, quando pensa nos bens que o cerca: o que levará consigo e o que deixará para trás? Não tem nada senão suas lembranças e estes pensamentos desordenados que o rodeiam.

Que se passa na cabeça de um homem quando tenta distinguir o essencial do supérfluo, o eterno do passageiro, o bom do ruim? E em que estado de ânimo entra um homem ao se deparar com a fragilidade e a pouca sobriedade dos critérios que utiliza para avaliar sua vida?

Este: este é o homem dilacerado. O homem que não bate o martelo, que não afirma o dever, que não sabe o certo. O homem que vive simplesmente, que vai sem saber um rumo certo, mas ainda vai. Se move: inconstante. Um andarilho entre todas as suas experiências e todas as suas vivências. Não seria ele uma criança incapaz de compreender o mundo e que precisa de tutores? Ou talvez um lógico frustrado com a  ilogicidade do mundo, das pessoas, da vida? "Somos capazes de dizer amor e fazer amor sem amor", pensa; "recebemos promessas de amor que na verdade são contratos". Ah, o amor, sempre ele: uma dessas coisas caóticas que perturbam os homens e que lhes afasta o sono.
  
Mas o caos não é culpado do amor e do não-amor. O caos existe no espírito inocente, que não entende. Que vive, que sente, que chora e que morre, mas que não entende. Tenta, divaga, desiste e volta a deitar. Pensa, perde o sono e volta a escrever. Sem razão, sem ordem, sem nexo. Um absurdo contraditório redundante a vida destes homens dilacerados. Destes homens sem critérios e sem chão, destes seres sensíveis e, ao mesmo tempo, indiferentes. Destes sem juízos de valor, céticos sem opção, descrentes por uma consequência da natureza. Para estes descrentes, dilacerados, imaturos, andarilhos; a estas crianças, sonâmbulas, logicamente frustradas, frágeis e pouco sóbrias não há chão, mas como que apenas um fio capaz de conectá-la novamente à sua existência e de dar sentido à sua vida. E é a este fio a que podem agarrar-se: serão livres dos dois modos. Que possuem verdadeiramente senão suas memórias? Quem pode abdicar de suas vivências?


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Deus, Carnap e a filosofia para o Nada

Uma das tarefas da filosofia analítica, uma corrente filosófica da contemporaneidade, é a separação entre os discursos significativos e os discursos não significativos. Em outras palavras, o que os filósofos analíticos queriam era esclarecer a diferença entre as ciências naturais e outras áreas do conhecimento, como a filosofia, a teologia, a literatura e assim por diante.

Carnap foi um dos teóricos mais importantes e radicais desta corrente, e que levou mais a sério esta tentativa de separar discursos significativos de discursos não significativos ou discursos sem sentido.

Em resumo, a proposta dele é o seguinte:

Pegue uma sentença qualquer, seja uma sentença das ciências naturais, da matemática, da filosofia, da literatura ou qualquer que seja.

1) Identifique os nomes (próprios e comuns) que ocorrem nessa sentença e veja se a definição desses nomes está direta ou indiretamente relacionada à experiência.

Explico.

Quando se diz: Esta mesa é redonda, todo metal quando aquecido se dilata, artrópodes possuem extremidades articuladas, etc etc etc, a atribuição do valor verdade ou falsidade de cada proposição é possível simplesmente confrontando o pensamento expresso por cada sentença com os fatos do mundo empírico.

Sendo mais direto:

·         pegue a porra da mesa
·         olhe se a porra da mesa é redonda ou não é.
·         Se for, então (V) para "a porra da mesa é redonda"
·         caso contrário, (F) para "a porra da mesa é redonda"
·        Se o predicado aplicado à mesa em questão for um predicado não verificável empiricamente, tipo "a mesa nadifica", "a mesa é", "a mesa estuda em Marte quando nenhum ser humano está à sua volta", então as sentenças nas quais esses predicados aparecem não são significativas.

Há outros pormenores do critério, mas são mais simples e enunciarei brevemente:

2) A sentença deve estar OK do ponto de vista sintático, conforme a lógica clássica e a linguagem na qual ela foi construída, e

3) A sentença não deve incorrer no erro de tipos.

Por exemplo: O Pablo é um número primo.

Estou mastigando e possivelmente expondo a coisa de maneira mais "chula" do que ela é. Mas embora pareça trivial, esse critério de significado rejeita que se possa fazer conhecimento com diferentes tipos de proposições.

As proposições da matemática e da lógica são sem significado, porque não derivam da experiência.
As proposições da metafísica são sem significado, porque não derivam da experiência.
As proposições da teologia, da ética, da arte, etc. não são significativas e, portanto, não podem ter um valor de verdade ou de falsidade.
Há ressalvas para a lógica e para a matemática que não citarei aqui.

Chegando no assunto de Deus:

"Outro exemplo é a palavra "Deus". Devemos aqui, exceto as variações de seu uso em cada domínio, distinguir o uso linguístico em três diferentes contextos ou épocas históricas que, no entanto, sobreporam-se temporariamente. Em seu uso mitológico, a palavra tem um significado claro. Ela, ou palavras paralelas em outras linguagens, é algumas vezes usada para denotar seres físicos que são entronados no Monte Olímpo, no Céu ou no Hades, e que são dotados de poder, sabedoria, bondade e alegria em maior ou menor grau. Algumas vezes a palavra também se refere a seres espirituais que, de fato, não possuem corpos humanos, mas se manifestam de algum modo em coisas ou processos do mundo visível e são portanto empiricamente verificáveis. Em seu uso metafísico, por outro lado, a palavra "Deus" refere-se a algo que excede a experiência. A palavra é deliberadamente despojada de sua referência a um ser físico ou ser espiritual que é imanente no [mundo] físico. E como não é dado um novo significado, ela torna-se sem significado. Para ser exato, frequentemente parece que a palavra "Deus" tem um significado mesmo na metafísica. Mas as definições que são postas revelam-se, numa inspeção cuidadosa, pseudodefinições. Elas levam ou a uma combinação logicamente ilegítima de palavras (trataremos disto mais tarde) ou a outras palavras metafísicas (por exemplo, "base primordial", "o absoluto", "o incondicionado", "o autônomo", "o autodependente" etc), exceto no caso das condições de verdade de suas sentenças elementares. (...)

O uso teológico da palavra "Deus" está entre seu uso mitológico e metafísico. Não há significado distinto aqui, mas uma oscilação entre um dos dois usos antes mencionados. Muitos teólogos possuem um conceito claramente empírico (em nossa terminologia, "mitológico") de Deus. Neste caso não há pseudo-enunciados; mas a desvantagem para o teólogo está na circunstância de que, de acordo com esta interpretação de que os enunciados da teologia são empíricos e, portanto estão sujeitos aos julgamentos da ciência empírica. O uso linguístico de outros teólogos é claramente metafísico. Além disso, outros não falam de forma definida, seja porque eles agora seguem isto, este uso linguístico, seja porque eles se expressam em termos cujo uso não é claramente classificável, pois tende em direção a ambos lados."

Onde eu queria chegar com isso tudo:

Não é possível aceitar o critério de significado de Carnap e ainda assim ter um posicionamento ateísta com relação a Deus ou a outros seres metafísicos. Se o ateísmo for entendido como a falsidade da proposição "Deus existe" então o ateísmo, de acordo com esse critério, não faz sentido. Nem mesmo o teísmo e o agnosticismo fazem, se se entender por agnosticismo a ausência de condições suficientes para corroborar ou para refutar definitivamente a existência ou a inexistência de Deus.

Dizendo mais: com o critério de Carnap, tem-se um novo posicionamento acerca da religião e da existência de Deus:

(V) Deus existe
(F) Deus existe
(?) Deus existe

e a nova posição:

"Deus existe" carece de significado e, portanto, não pode ser verdadeira nem falsa. A questão da existência e da inexistência de Deus não é uma questão genuína e "Onde não há questão, nem mesmo um ser onisciente pode dar uma resposta."


(retirado do facebook)


E para quem eu dedico este breve esforço intelectual de expor um dos meus objetos de estudo?


Para o Nada.


E o que, quem, como, onde e porque o Nada?

Não há NADA mais frustrante na existência de um ser humano do que a indiferença e a incapacidade alheia de compreender e de reconhecer a importância daquilo que lhe é importante.

Por que cachorros? Por que números? Por que hambúrgueres? Por que leis? Por que células? Por que átomos, moléculas, fórmulas, vegetais, computadores, notas musicais, cédulas de dinheiro, farinhas de casca de banana e tintas para cartuchos de impressora? Por que nunca a filosofia? 


O que ocorre com a filosofia? Nada? NADA?

O Nada existe apenas porque o Não, isto é, a Negação existe? Ou ele está de outra forma em volta? A Negação e o Não existem apenas porque o Nada existe? Afirmamos: O Nada é anterior ao Não e à Negação... Onde devemos procurar o Nada? Como descobrimos o Nada. Conhecemos o Nada. A antiguidade revela o Nada. Por causa disso e porque houve os antigos, havia 'realmente' – nada. De fato: o Nada em si mesmo – como tal – estava presente. O que ocorre com o Nada? – O Nada em si mesmo nadifica.

E a filosofia continua. Nadificando a existência dos vazios, incompreendidos, irreconhecíveis e injustiçados aspirantes à filosofia...

(word atento à falha do nadifica)