"A falsa ilusão de que o destino da vida está assegurado em nossas mãos é que cria espaço para a culpa."
http://papodehomem.com.br/os-mecanismos-da-culpa-id-8/
Que minhas palavras não nasçam nunca do esforço, mas da necessidade, e que em seu sangue corra a sinceridade e a espontaneidade deste que escreve.
domingo, 8 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
O Caos Vespertino
Há coisas que passam pela cabeça
dos homens capazes de fazê-los ficarem acordados por dias. Há coisas, do mesmo
tipo, que os impedem de tirar seu cochilo vespertino. São tantos os
acontecimentos e sentimentos que muitas vezes divagações são necessárias. A
esse fenômeno os filósofos dão o nome de catarse, o ato de vomitar ao mundo
todas as indecências, o descontrole, os desentendimentos interiores.
Dilacerações.
Que se passa na cabeça de um
homem quando pensa em seu futuro? Quando pensa em se mudar, em seus amigos,
família, namorada, faculdade. Quando pensa no que fez e no que poderá fazer,
quando pensa nos bens que o cerca: o que levará consigo e o que deixará para
trás? Não tem nada senão suas lembranças e estes pensamentos desordenados que o
rodeiam.
Que se passa na cabeça de um
homem quando tenta distinguir o essencial do supérfluo, o eterno do passageiro,
o bom do ruim? E em que estado de ânimo entra um homem ao se deparar com a
fragilidade e a pouca sobriedade dos critérios que utiliza para avaliar sua
vida?
Este: este é o homem dilacerado.
O homem que não bate o martelo, que não afirma o dever, que não sabe o certo. O
homem que vive simplesmente, que vai sem saber um rumo certo, mas ainda vai. Se
move: inconstante. Um andarilho entre todas as suas experiências e todas as
suas vivências. Não seria ele uma criança incapaz de compreender o mundo e que
precisa de tutores? Ou talvez um lógico frustrado com a ilogicidade do
mundo, das pessoas, da vida? "Somos capazes de dizer amor e fazer amor sem
amor", pensa; "recebemos promessas de amor que na verdade são
contratos". Ah, o amor, sempre ele: uma dessas coisas caóticas que
perturbam os homens e que lhes afasta o sono.
Mas o caos não é culpado do amor
e do não-amor. O caos existe no espírito inocente, que não entende. Que vive,
que sente, que chora e que morre, mas que não entende. Tenta, divaga, desiste e
volta a deitar. Pensa, perde o sono e volta a escrever. Sem razão, sem ordem,
sem nexo. Um absurdo contraditório redundante a vida destes homens dilacerados.
Destes homens sem critérios e sem chão, destes seres sensíveis e, ao mesmo
tempo, indiferentes. Destes sem juízos de valor, céticos sem opção, descrentes
por uma consequência da natureza. Para estes descrentes, dilacerados, imaturos,
andarilhos; a estas crianças, sonâmbulas, logicamente frustradas, frágeis e
pouco sóbrias não há chão, mas como que apenas um fio capaz de conectá-la
novamente à sua existência e de dar sentido à sua vida. E é a este fio a que
podem agarrar-se: serão livres dos dois modos. Que possuem verdadeiramente
senão suas memórias? Quem pode abdicar de suas vivências?
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Deus, Carnap e a filosofia para o Nada
Uma das tarefas da filosofia analítica, uma corrente
filosófica da contemporaneidade, é a separação entre os discursos
significativos e os discursos não significativos. Em outras palavras, o que os
filósofos analíticos queriam era esclarecer a diferença entre as ciências
naturais e outras áreas do conhecimento, como a filosofia, a teologia, a
literatura e assim por diante.
Carnap foi um dos teóricos mais importantes e radicais desta
corrente, e que levou mais a sério esta tentativa de separar discursos significativos
de discursos não significativos ou discursos sem sentido.
Em resumo, a proposta dele é o seguinte:
Pegue uma sentença qualquer, seja uma sentença das ciências naturais, da matemática, da filosofia, da literatura ou qualquer que seja.
1) Identifique os nomes (próprios e comuns) que ocorrem nessa
sentença e veja se a definição desses nomes está direta ou indiretamente
relacionada à experiência.
Explico.
Quando se diz: Esta mesa é redonda, todo metal quando
aquecido se dilata, artrópodes possuem extremidades articuladas, etc etc etc, a
atribuição do valor verdade ou falsidade de cada proposição é possível
simplesmente confrontando o pensamento expresso por cada sentença com os fatos
do mundo empírico.
Sendo mais direto:
· pegue
a porra da mesa
· olhe
se a porra da mesa é redonda ou não é.
· Se
for, então (V) para "a porra da mesa é redonda"
· caso
contrário, (F) para "a porra da mesa é redonda"
· Se
o predicado aplicado à mesa em questão for um predicado não verificável
empiricamente, tipo "a mesa nadifica", "a mesa é", "a
mesa estuda em Marte quando nenhum ser humano está à sua volta", então as
sentenças nas quais esses predicados aparecem não são significativas.
Há outros pormenores do critério, mas são mais simples e
enunciarei brevemente:
2) A sentença deve estar OK do ponto de vista sintático,
conforme a lógica clássica e a linguagem na qual ela foi construída, e
3) A sentença não deve incorrer no erro de tipos.
Por
exemplo: O Pablo é um número primo.
Estou mastigando e possivelmente expondo a coisa de maneira
mais "chula" do que ela é. Mas embora pareça trivial, esse critério
de significado rejeita que se possa fazer conhecimento com diferentes tipos de
proposições.
As proposições da matemática e da lógica são sem significado,
porque não derivam da experiência.
As proposições da metafísica são sem significado, porque não
derivam da experiência.
As proposições da teologia, da ética, da arte, etc. não são
significativas e, portanto, não podem ter um valor de verdade ou de falsidade.
Há ressalvas para a lógica e para a matemática que não
citarei aqui.
Chegando no assunto de Deus:
"Outro exemplo é a palavra "Deus". Devemos
aqui, exceto as variações de seu uso em cada domínio, distinguir o uso
linguístico em três diferentes contextos ou épocas históricas que, no entanto,
sobreporam-se temporariamente. Em seu uso mitológico, a palavra tem um
significado claro. Ela, ou palavras paralelas em outras linguagens, é algumas
vezes usada para denotar seres físicos que são entronados no Monte Olímpo, no
Céu ou no Hades, e que são dotados de poder, sabedoria, bondade e alegria em
maior ou menor grau. Algumas vezes a palavra também se refere a seres
espirituais que, de fato, não possuem corpos humanos, mas se manifestam de
algum modo em coisas ou processos do mundo visível e são portanto empiricamente
verificáveis. Em seu uso metafísico, por outro lado, a palavra "Deus"
refere-se a algo que excede a experiência. A palavra é deliberadamente
despojada de sua referência a um ser físico ou ser espiritual que é imanente no
[mundo] físico. E como não é dado um novo significado, ela torna-se sem
significado. Para ser exato, frequentemente parece que a palavra
"Deus" tem um significado mesmo na metafísica. Mas as definições que
são postas revelam-se, numa inspeção cuidadosa, pseudodefinições. Elas levam ou
a uma combinação logicamente ilegítima de palavras (trataremos disto mais
tarde) ou a outras palavras metafísicas (por exemplo, "base
primordial", "o absoluto", "o incondicionado", "o
autônomo", "o autodependente" etc), exceto no caso das condições
de verdade de suas sentenças elementares. (...)
O uso teológico da palavra "Deus" está entre seu
uso mitológico e metafísico. Não há significado distinto aqui, mas uma
oscilação entre um dos dois usos antes mencionados. Muitos teólogos possuem um
conceito claramente empírico (em nossa terminologia, "mitológico") de
Deus. Neste caso não há pseudo-enunciados; mas a desvantagem para o teólogo
está na circunstância de que, de acordo com esta interpretação de que os
enunciados da teologia são empíricos e, portanto estão sujeitos aos julgamentos
da ciência empírica. O uso linguístico de outros teólogos é claramente
metafísico. Além disso, outros não falam de forma definida, seja porque eles
agora seguem isto, este uso linguístico, seja porque eles se expressam em
termos cujo uso não é claramente classificável, pois tende em direção a ambos
lados."
Onde eu queria chegar com isso tudo:
Não é possível aceitar o critério de significado de Carnap e
ainda assim ter um posicionamento ateísta com relação a Deus ou a outros seres
metafísicos. Se o ateísmo for entendido como a falsidade da proposição
"Deus existe" então o ateísmo, de acordo com esse critério, não faz
sentido. Nem mesmo o teísmo e o agnosticismo fazem, se se entender por
agnosticismo a ausência de condições suficientes para corroborar ou para
refutar definitivamente a existência ou a inexistência de Deus.
Dizendo mais: com o critério de Carnap, tem-se um novo
posicionamento acerca da religião e da existência de Deus:
(V) Deus existe
(F) Deus existe
(?) Deus existe
e a nova posição:
"Deus existe" carece de significado e, portanto,
não pode ser verdadeira nem falsa. A questão da existência e da inexistência de
Deus não é uma questão genuína e "Onde não há questão, nem mesmo um ser
onisciente pode dar uma resposta."
(retirado do facebook)
E para quem eu dedico este breve esforço intelectual de expor um dos meus objetos de estudo?
(retirado do facebook)
E para quem eu dedico este breve esforço intelectual de expor um dos meus objetos de estudo?
Para o Nada.
E o que, quem, como, onde e porque o Nada?
Não há NADA mais frustrante na existência de um ser humano do que a indiferença e a incapacidade alheia de compreender e de reconhecer a importância daquilo que lhe é importante.
Por que cachorros? Por que números? Por que hambúrgueres? Por que leis? Por que células? Por que átomos, moléculas, fórmulas, vegetais, computadores, notas musicais, cédulas de dinheiro, farinhas de casca de banana e tintas para cartuchos de impressora? Por que nunca a filosofia?
O que ocorre com a filosofia? Nada? NADA?
O Nada existe apenas porque o Não, isto é, a Negação existe? Ou ele está de outra forma em volta? A Negação e o Não existem apenas porque o Nada existe? Afirmamos: O Nada é anterior ao Não e à Negação... Onde devemos procurar o Nada? Como descobrimos o Nada. Conhecemos o Nada. A antiguidade revela o Nada. Por causa disso e porque houve os antigos, havia 'realmente' – nada. De fato: o Nada em si mesmo – como tal – estava presente. O que ocorre com o Nada? – O Nada em si mesmo nadifica.
E a filosofia continua. Nadificando a existência dos vazios, incompreendidos, irreconhecíveis e injustiçados aspirantes à filosofia...
O Nada existe apenas porque o Não, isto é, a Negação existe? Ou ele está de outra forma em volta? A Negação e o Não existem apenas porque o Nada existe? Afirmamos: O Nada é anterior ao Não e à Negação... Onde devemos procurar o Nada? Como descobrimos o Nada. Conhecemos o Nada. A antiguidade revela o Nada. Por causa disso e porque houve os antigos, havia 'realmente' – nada. De fato: o Nada em si mesmo – como tal – estava presente. O que ocorre com o Nada? – O Nada em si mesmo nadifica.
E a filosofia continua. Nadificando a existência dos vazios, incompreendidos, irreconhecíveis e injustiçados aspirantes à filosofia...
(word atento à falha do nadifica)
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Fair Reciprocity
An uncouth and a liberal enter in a bar.
The uncouth asks:
- "Why limit myself in pursuit of my own advantage?"
The liberal answers:
- "You have what you have only because others constrain themselves, in ways that make for a fair cooperative venture for mutual advantage. Constrain yourself by those rules in return, and you give them fair return for what they give you."
- But my natural right to property....
- Did you hear "you have what you have only because others agree to constrain themselves"?
The uncouth asks:
- "Why limit myself in pursuit of my own advantage?"
The liberal answers:
- "You have what you have only because others constrain themselves, in ways that make for a fair cooperative venture for mutual advantage. Constrain yourself by those rules in return, and you give them fair return for what they give you."
- But my natural right to property....
- Did you hear "you have what you have only because others agree to constrain themselves"?
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Eu quero ver o oco uno
Eu, como pessoa, tenho uma visão limitada do mundo.
Essa afirmação não é tão assustadora, afinal ouvi falar de uns caranguejos aí que enxergam mais cores que eu, incluindo a radiação emitida pelos corpos e outras imagens que não sei descrever bem por não conhecê-las e não enxergá-las.
De qualquer modo, acredito que minha sensibilidade seja limitada. Tudo o que recebo passa por esses filtros dos sentidos e, de alguma maneira, formam imagens, sons, gostos, conexões, frases e formas na minha mente.
O curioso é que, mesmo ciente desse processo limitado de criação de representações mentais, eu, enquanto pessoa, ainda busco o ilimitado, o universal, o quid, o ser, o eterno.
Eu quero ver o oco.
Essa busca pode soar vã, mas é cheia de sentido e necessária para a existência.
Faço várias suposições.
Suponho que a ciência é a sistematização de conhecimentos com alto grau de confiabilidade.
Suponho que existem outras pessoas e objetos no mundo com exceção daqueles representados na minha mente.
Sinceramente, eu acho saudável acreditar que existem pessoas e objetos no mundo. Acho saudável acreditar que existem coisas fora de mim, acho saudável acreditar que isso tudo não está saindo de dentro de minha mente maluca, que o mundo não é representado diante de meus olhos e de meus outros sentidos como um filme é apresentado numa tela de cinema. Bem, algumas vezes eu duvido disso e duvido também da minha sanidade. Espero seguir o ciclo da vida feliz e morrer confortável.
Se eu estiver certo nessas suposições e estiver certo ao acreditar que os objetos externos perturbam meus sentidos de alguma forma e são causa das representações mentais que tenho, então talvez eu também esteja certo em acreditar na limitação dessas representações (por causa do caso do caranguejo lá em cima). Assim, tudo o que tenho é uma visão limitada que não aspira nada senão o infinito.
Não consigo explicar a necessidade dessa busca pelo incondicional, infinito, imutável, verdade, ser, universal, oco, quid. Se é uma disposição natural de minha existência enquanto ser humano, eu gostaria de me conhecer o suficiente para entender sob quais aspectos essa disposição se apresenta.
Parece-me mais confortável, entretanto, acreditar nessas coisas, além mesmo de supor que existem. Parece-me confortável acreditar na ciência como conhecimento certo, seguro e absoluto. Parece-me confortável acreditar na religião como conhecimento certo, seguro e absoluto. Parece-me certo acreditar numa visãozinha limitada, disforme, distorcida e chula dessa realidade como a verdade absoluta.
Não sei porque, isso talvez faça com que encostemos a cabeça no travesseiro e tenhamos uma noite de sono mais tranquila, ou talvez evite que apertemos o OFF e encerremos o filme.
Se é assim, então, o conteúdo de minha mente é fruto de uma junção entre as representações advindas do externo e dos dados já presentes em minha memória.
Entretanto, mas, porém, todavia
Eu não tenho consciência de tudo o que está dentro de minha mente. Tanta coisa perturba e tanta coisa já perturbou meus sentidos que eu me sinto, no sentido pouco amplo da palavra, perturbado. Essa perturbação é passageira: vem, vai, incomoda, às vezes parece insuportável, às vezes acho ridícula e às vezes nem lembro que existe.
A infinidade de representações que já passaram na minha mente é irrepresentável e insondável, bem como a sua influência nas novas representações mentais que se seguirão e nas minhas ações, dentre elas na minha escrita e fala.
Tudo é fruto de uma perspectiva composta de elementos insondáveis, com certo grau de complexidade e em boa parte ininteligíveis.
Curioso é achar que isso é universal, eterno, imutável e compartilhado por todas as outras mentes que eu suponho existir no mesmo mundo que eu.
terça-feira, 26 de março de 2013
Sobre a escrita de obras de filosofia
"Alguns acreditam que, para escrever um livro de filosofia, o autor deve considerar exaustivamente todos os detalhes e problemas de sua concepção, polindo-a e refinando-a a fim de apresentá-la ao mundo como um todo acabado, completo e elegante. Não partilho dessa concepção. Seja como for, acredito que há lugar e função, no presente universo intelectual, para uma obra menos completa, que contenha apresentações inacabadas, conjecturas, questões em aberto e problemas não resolvidos, indicações, digressões, bem como uma linha principal de raciocínio. Há espaço para a apresentação de ideias que não precisam se assumir como a última palavra sobre determinado assunto.
Na verdade, fico perplexo com o modo como os trabalhos filosóficos costumam ser apresentados. As obras de filosofia são escritas como se seus autores acreditassem que elas fossem a palavra derradeira sobre o assunto em questão. Sem dúvida, porém, o que acontece não é que cada filósofo acredite que finalmente, graças a Deus, encontrou a verdade e ergueu uma fortaleza inexpugnável em torno dela. Na verdade, somos muito mais modestos, e por bons motivos. Depois de refletir longa e exaustivamente sobre o ponto de vista que apresenta, o filósofo sabe mais ou menos bem onde estão seus pontos fracos; os lugares em que se coloca um grande peso intelectual sobre algo talvez frágil demais para suportá-lo, os momentos em que o ponto de vista pode começar a ser esclarecido, os pressupostos não comprovados que lhe causam desconforto.
Há uma forma de atividade filosófica que consiste em empurrar e pressionar as coisas para que elas se encaixem dentro do período predeterminado de um modelo específico. Todas essas coisas estão soltas por aí e precisam ser postas para dentro. Então você empurra e aperta o material para dentro da área demarcada, introduzindo-o por um dos lados: ele vaza do outro. Você dá a volta e pressiona a protuberância que se formou: aparece outra em um lugar diferente. Então você empurra, aperta e corta fora os cantos das coisas para que elas se encaixem, pressionando até que, finalmente, quase tudo se acomoda mais ou menos bem lá dentro; que fica de fora é jogado para BEM LONGE, para que ninguém perceba. (É evidente que o processo não é TÃO grosseiro assim. Há também a bajulação e os afagos. E o jogo de cintura.) RAPIDAMENTE, você descobre um ângulo do qual tudo parece perfeitamente encaixado e tira uma foto; com uma abertura rápida do obturador antes que algo saia do lugar de maneira muito evidente. Volta, então, para a sala escura para retocar as rachaduras, falhas e aberturas na estrutura do perímetro. Só resta, então, publicar a foto como uma representação exata de como as coisas são, e declarar que nada se encaixa adequadamente de nenhuma outra forma.
Nenhum filósofo diz: 'Foi lá que comecei, eis aqui onde cheguei; a maior fragilidade de minha obra decorre do fato de eu ter partido de lá para chegar aqui; em particular, cá estão as mais notáveis distorções, investidas, encontrões, pancadas, buscas, exageros e exclusões que cometi durante o percurso; sem falar das coisas que joguei fora ou ignorei, e de todas as outras coisas das quais desviei o olhar.'
Acredito que a reticência dos filósofos sobre as fragilidades que percebem em suas próprias concepções não seja apenas uma questão de honestidade filosófica e integridade, ainda que o seja ou que pelo menos venha a sê-lo ao chegar ao nível de consciência. A reticência está relacionada com os propósitos dos filósofos ao formularem seus pontos de vista. Por que se esforçam para enfiar tudo dentro daquela área predeterminada? Por que não em outra área, ou, de maneira mais radical, por que não deixar as coisas onde estão? De que nos serve TER tudo dentro de um perímetro? Por que desejamos tanto isso? (De que isso nos protege?)"
Robert Nozick, no prefácio de Anarquia, Estado e Utopia.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Agnosticismo Parte I - Nascimento de Deus
Deus existe?
Deus não existe?
O que é existir?
O que é Deus?
O que?
É ou não é?
Existem sacis?
Existem fadas?
Existem dragões?
Nós existimos?
Nalgum momento da história deste mundo a humanidade aceitou que tudo o que existe deve ser captado diretamente pelos nossos sentidos. Depositando uma certa confiança neles, nós acreditamos que existe o chão que pisamos, que existe o vinho que bebemos, o fedor que exala de nosso suor, a melodia do canto dos pássaros e o piscar discreto dos vaga-lumes.
Acreditamos, assim, que o mundo existe. Alguns ousam dizer que esta é uma maneira bastante parecida com o modo dos animais acreditar que o mundo existe, mas temos alguns motivos para fazê-lo: se eu fechar meus olhos por 2 segundos e logo em seguida reabri-los, o mundo continuará lá, talvez apenas um pouco diferente do que era antes. Se eu repetir o mesmo experimento 100 mil vezes, talvez o mundo mude, mas continuará lá. No fim das contas, isto soou e soa convincente o suficiente para desassociar e incompatibilizar o existente do inexistente.
Mas para a humanidade nada é muito suficiente, e tentando entender o que deram o nome de "mundo" e "realidade", criaram alguns instrumentos, dentre eles um tal de "número". E esse número passou a existir no papel, na cabeça dos seres humanos e em alguns textos. E houve uma criança ousada que não caiu muito rápido nessa conversa, alegando que ela não podia ver, cheirar, tocar, degustar ou ouvir os números.
Pobre criança, pregaram-lhe uma peça e não lhe avisaram que agora a razão também servia pra identificar o que existe e o que não existe.
E essa razão já existia, diziam, porque foi ela que começou a dar nome pras coisas. E que era ela quem olhava e dizia: vaga-lume! E quando ouvia: canto! E quando pisava: chão! Muitas eras se passaram até se descobrir que a razão não vê, não ouve, não diz, e nesta que vos narro houve outra criança que não gostou do chão e quis fugir dele, tentando afastar seus pés para cima. E eis que ela não conseguiu: alguns disseram que ela ficou frustrada, outros que a mágica que não deixava as pessoas se afastar do chão se chamava gravidade. E a gravidade agora existia. E os números.
Muitas coisas passaram a existir numa confusão imensa, e aquele empreendimento de dar nome a tudo foi se tornando um exercício repetitivo até que todos do grupo chamavam as coisas do mundo pelos mesmos nomes.
Certa vez, cansados de dar nome às coisas da razão e dos sentidos, deram-se conta que a esfera quente e luminosa que brilhava acima deles escondia se num lugar chamado oeste, dando lugar a uma brisa fria e pouco iluminada. Ao olharem para baixo pouco conseguiam enxergar, mas ao olharem para cima, deram-se conta que a imensidão azul de nuvens e com uma esfera luminosa e quente dava espaço a uma imensidão escura, cheia de pontinhos brilhantes e uma grande e bela esfera (aparentemente maior do que a esfera quente e luminosa), mais fácil e mais agradável de olhar. E de tão agradável fez os homens deitarem-se na relva e verem-na movendo-se lentamente até o canto do mundo, até que a grande esfera quente e luminosa voltou a se apresentar.
"Olha só", gritou uma criança fascinada.
"Lua e Sol"?
Nasceram mais dois nomes e com eles nasceu o movimento. E as pessoas perceberam que não eram só eles que andavam, mas também as esferas brilhantes e as massas branquicentas da imensidão azul e preta do céu.
Existia uma espécie de movimento que prendia a atenção dos homens mais do que todas as outras coisas do mundo: o movimento belo de um pequeno caule que crescia contra a mágica da gravidade e que em poucos dias enfeitava-se com pequenas pétalas rosadas. Também o movimento de alguns pequenos barulhentos, que começavam a se equilibrar em duas patas e que, com o passar dos dias, esticavam e esticavam e esticavam, também contra a força mágica da gravidade e ao mesmo tempo em que paravam de berrar.
E eis que um dia um dos homens (que já há muito tinha parado de se esticar) começou a olhar muito para o chão, e de tanto olhar ficou curvo, e de tanto se curvar ao chão caiu e de lá não mais saiu.
Também não se mexia mais, e agora novamente tudo ficara confuso.
As coisas se mexem, as coisas emitem sons, imagens, gostos, formas e matérias.
Movem-se, crescem, encurvam-se, enfeiam-se, caem e param de se mexer. Enquanto alguns ficaram perplexos, um gênio descobriu que se se colocasse uma semente debaixo do chão, em alguns dias no mesmo lugar haveria um caule com pequenas pétalas esverdeadas.
Já outro, preocupado, concluiu que tudo o que crescia contra a mágica força da gravidade deveria ter sido plantado ou colocado ali por outro homem.
Mas os homens eram poucos e pequenos e o mundo era imenso e vasto, e eles não tinham como colocar os pássaros nas árvores e as folhas em suas copas, e os peixes na água, e as montanhas sobre o chão, pois mal tinham descoberto como colocar sementes debaixo do chão.
"Quem colocou tudo isso aqui?", alguém perguntou.
Depois de muitas horas de choro, ranger de dentes e desespero, concluíram:
"Alguém que veio antes de nós.", disse um.
"Mas quem?"
Mais algumas horas de desespero - a humanidade inventou nomes para dor de cabeça e dor nas costas - antes de concluir:
Há duas esferas grandes lá no céu.
Há montanhas e árvores grandes aqui no chão.
O chão parece ser tão grande quanto o céu.
Nós não alcançamos as esferas lá em cima, não conseguimos colocá-las lá,
nem plantamos essas árvores tão grandes que fazem sombra aqui,
nem percorremos todo o chão sem antes nos cansarmos,
nem sabemos que são esses bichos e essas coisas e isso tudo.
Afinal de contas, quem fez tudo isso só pode ser um super-homem.
"Adeus", disse um homem que alegava muito daquela dor nas costas por estar muito encurvado, e também muita dor de cabeça por estar com o cenho muito acentuado.
"Deus parece ser um bom nome para o criador invisível disso tudo."
Deus não existe?
O que é existir?
O que é Deus?
O que?
É ou não é?
Existem sacis?
Existem fadas?
Existem dragões?
Nós existimos?
Nalgum momento da história deste mundo a humanidade aceitou que tudo o que existe deve ser captado diretamente pelos nossos sentidos. Depositando uma certa confiança neles, nós acreditamos que existe o chão que pisamos, que existe o vinho que bebemos, o fedor que exala de nosso suor, a melodia do canto dos pássaros e o piscar discreto dos vaga-lumes.
Acreditamos, assim, que o mundo existe. Alguns ousam dizer que esta é uma maneira bastante parecida com o modo dos animais acreditar que o mundo existe, mas temos alguns motivos para fazê-lo: se eu fechar meus olhos por 2 segundos e logo em seguida reabri-los, o mundo continuará lá, talvez apenas um pouco diferente do que era antes. Se eu repetir o mesmo experimento 100 mil vezes, talvez o mundo mude, mas continuará lá. No fim das contas, isto soou e soa convincente o suficiente para desassociar e incompatibilizar o existente do inexistente.
Mas para a humanidade nada é muito suficiente, e tentando entender o que deram o nome de "mundo" e "realidade", criaram alguns instrumentos, dentre eles um tal de "número". E esse número passou a existir no papel, na cabeça dos seres humanos e em alguns textos. E houve uma criança ousada que não caiu muito rápido nessa conversa, alegando que ela não podia ver, cheirar, tocar, degustar ou ouvir os números.
Pobre criança, pregaram-lhe uma peça e não lhe avisaram que agora a razão também servia pra identificar o que existe e o que não existe.
E essa razão já existia, diziam, porque foi ela que começou a dar nome pras coisas. E que era ela quem olhava e dizia: vaga-lume! E quando ouvia: canto! E quando pisava: chão! Muitas eras se passaram até se descobrir que a razão não vê, não ouve, não diz, e nesta que vos narro houve outra criança que não gostou do chão e quis fugir dele, tentando afastar seus pés para cima. E eis que ela não conseguiu: alguns disseram que ela ficou frustrada, outros que a mágica que não deixava as pessoas se afastar do chão se chamava gravidade. E a gravidade agora existia. E os números.
Muitas coisas passaram a existir numa confusão imensa, e aquele empreendimento de dar nome a tudo foi se tornando um exercício repetitivo até que todos do grupo chamavam as coisas do mundo pelos mesmos nomes.
Certa vez, cansados de dar nome às coisas da razão e dos sentidos, deram-se conta que a esfera quente e luminosa que brilhava acima deles escondia se num lugar chamado oeste, dando lugar a uma brisa fria e pouco iluminada. Ao olharem para baixo pouco conseguiam enxergar, mas ao olharem para cima, deram-se conta que a imensidão azul de nuvens e com uma esfera luminosa e quente dava espaço a uma imensidão escura, cheia de pontinhos brilhantes e uma grande e bela esfera (aparentemente maior do que a esfera quente e luminosa), mais fácil e mais agradável de olhar. E de tão agradável fez os homens deitarem-se na relva e verem-na movendo-se lentamente até o canto do mundo, até que a grande esfera quente e luminosa voltou a se apresentar.
"Olha só", gritou uma criança fascinada.
"Lua e Sol"?
Nasceram mais dois nomes e com eles nasceu o movimento. E as pessoas perceberam que não eram só eles que andavam, mas também as esferas brilhantes e as massas branquicentas da imensidão azul e preta do céu.
Existia uma espécie de movimento que prendia a atenção dos homens mais do que todas as outras coisas do mundo: o movimento belo de um pequeno caule que crescia contra a mágica da gravidade e que em poucos dias enfeitava-se com pequenas pétalas rosadas. Também o movimento de alguns pequenos barulhentos, que começavam a se equilibrar em duas patas e que, com o passar dos dias, esticavam e esticavam e esticavam, também contra a força mágica da gravidade e ao mesmo tempo em que paravam de berrar.
E eis que um dia um dos homens (que já há muito tinha parado de se esticar) começou a olhar muito para o chão, e de tanto olhar ficou curvo, e de tanto se curvar ao chão caiu e de lá não mais saiu.
Também não se mexia mais, e agora novamente tudo ficara confuso.
As coisas se mexem, as coisas emitem sons, imagens, gostos, formas e matérias.
Movem-se, crescem, encurvam-se, enfeiam-se, caem e param de se mexer. Enquanto alguns ficaram perplexos, um gênio descobriu que se se colocasse uma semente debaixo do chão, em alguns dias no mesmo lugar haveria um caule com pequenas pétalas esverdeadas.
Já outro, preocupado, concluiu que tudo o que crescia contra a mágica força da gravidade deveria ter sido plantado ou colocado ali por outro homem.
Mas os homens eram poucos e pequenos e o mundo era imenso e vasto, e eles não tinham como colocar os pássaros nas árvores e as folhas em suas copas, e os peixes na água, e as montanhas sobre o chão, pois mal tinham descoberto como colocar sementes debaixo do chão.
"Quem colocou tudo isso aqui?", alguém perguntou.
Depois de muitas horas de choro, ranger de dentes e desespero, concluíram:
"Alguém que veio antes de nós.", disse um.
"Mas quem?"
Mais algumas horas de desespero - a humanidade inventou nomes para dor de cabeça e dor nas costas - antes de concluir:
Há duas esferas grandes lá no céu.
Há montanhas e árvores grandes aqui no chão.
O chão parece ser tão grande quanto o céu.
Nós não alcançamos as esferas lá em cima, não conseguimos colocá-las lá,
nem plantamos essas árvores tão grandes que fazem sombra aqui,
nem percorremos todo o chão sem antes nos cansarmos,
nem sabemos que são esses bichos e essas coisas e isso tudo.
Afinal de contas, quem fez tudo isso só pode ser um super-homem.
"Adeus", disse um homem que alegava muito daquela dor nas costas por estar muito encurvado, e também muita dor de cabeça por estar com o cenho muito acentuado.
"Deus parece ser um bom nome para o criador invisível disso tudo."
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Ordem das razões e dos cabelos
Eu tenho um pouco de politólogo e de moralista.
Eu sou um pragmatista com resquícios de utilitarista.
Eu sou chato, mesquinho, egoísta, presunçoso,
Eu sou um pragmatista com resquícios de utilitarista.
Eu sou chato, mesquinho, egoísta, presunçoso,
ciumento, cabeça dura e nervoso.
Essas são as razões pelas quais eu sou atraído pela filosofia prática e meus cabelos pelos buracos do ralo do banheiro.
Como todo politólogo e todo pragmático, busco prática na teoria e finalidade nos conceitos.
Precisa estar de acordo com o que eu creio (moralismo) e deve servir pra alguma coisa.
Essas são as razões pelas quais eu sou atraído pela filosofia prática e meus cabelos pelos buracos do ralo do banheiro.
Como todo politólogo e todo pragmático, busco prática na teoria e finalidade nos conceitos.
Precisa estar de acordo com o que eu creio (moralismo) e deve servir pra alguma coisa.
Se não está de acordo com o que eu creio, não presta. Pra mim. E eu creio no que presta.
Estas são as razões pelas quais eu continuo no inferno da raiva contida. O fogo ainda queima, mas é suave e constante. Contido. Não arde como a paixão, mas crepita às vezes. É pior do que a labareda dos dragões que torra qualquer carne em segundos.
Prefiro muita dor em pouco tempo do que pouca dor em muito tempo. Malditas proporções! E malditas comparações...
Mas sou parecido com Prometeu neste ponto, que preferia ter seu corpo devorado pelo animal mais feroz, ter sido pisoteado pela mais frenética das manadas ou chorado as lágrimas mais doídas do pior dos sofrimentos (os do amor) do que ter todos os dias o seu fígado devorado por Ethon. Repito: TODOS OS DIAS. Dias parecem a eternidade, assim como as noites, as semanas e os anos. E eu continuo queimando devagar nas brasas infernais da raiva, do desprezo, da indignação.
Mas não me culpo nem me perdoo por isso.
Nem culpo as coisas do mundo.
Que culpa tenho eu se não enquadro minha vida nas frases dos homens célebres?
Que culpa tem as frases dos homens célebres se não se enquadram na minha vida?
Sobrevivo, mas os cabelos caem.
Que culpa tenho eu se não enquadro minha vida nas frases dos homens célebres?
Que culpa tem as frases dos homens célebres se não se enquadram na minha vida?
Sobrevivo, mas os cabelos caem.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Condenado à poesia?
Eu não quero ser poeta.
Os poetas amam demais, sofrem demais, vivem demais.
Eu repito, eu não quero ser poeta!
Mas às vezes ser poeta é inevitável...
É difícil permanecer na insensibilidade,
como quando você olha a chuva cair lá fora, se apoia na janela e sente as pequenas gotas d'água molhar o seu rosto.
Que vontade de tomar banho de chuva!
Poetas tomam banho de chuva. Deve ser por isso que eles sofrem...
domingo, 19 de agosto de 2012
Desabafo de um arrogante não tão engraçado
De um sorriso (Smile) meio amarelo e desfigurado. E feio. O sorriso? Duvido muito. Mas não há problemas em ter um sorriso feio, há problemas em buscar compreensão e aceitação alheia do seu sorriso. Isso é fraqueza.
Buscar aprovação alheia é fraqueza. Se o motor da sua vida é fazer para os outros, sua vida é vazia. Faça por você mesmo, você é e será sempre a pessoa mais importante em qualquer relação que você esteja. Não espere que as pessoas façam, elas simplesmente não correspondem às suas expectativas. Neste mundo, na maioria das vezes a esperança implica em decepção.
Não peça desculpas porque o que você fez não foi bem aceito por uma pessoa ou por um grupo de pessoas. Não peça desculpas por ter feito algo que você realmente queria fazer. Não peça desculpas quando você não correspondeu à expectativa de alguém. Não peça desculpas...
Desapegue-se. Pessoas nem sempre merecem respeito. Pessoas nem sempre tem atitudes dignas de respeito. Isso não implica em desrespeitar a todos mas respeitar a quem merece.
Você é uma pessoa de respeito?
Você busca o respeito das outras pessoas? Se sim, você é fraco.
O critério que deveríamos usar para saber a resposta à primeira pergunta está em nós mesmos. Você é a medida de si e do mundo que está à sua volta. Você se respeita?
Você se responsabiliza pelas suas ações ou fica procurando escusas e razões pelas quais fez o que fez?
Você tomou as rédeas da sua vida ou resolveu deixar que as coisas simplesmente aconteçam sem interferir em nada?
Você já parou pra pensar na sua vida? Se não parou, você não é muito diferente de um cachorro ou de uma árvore...
Você sente orgulho de quem você é e das coisas que você faz?
Você consegue enxergar quem você quer ser no futuro, a curto, médio e longo prazo?
Você age em conformidade com os objetivos que almeja?
Enxergue as boas ações que fez, as boas coisas que construiu e localize os erros que cometeu. Assuma a responsabilidade por eles e simplesmente não os repita. É simples, não é mesmo?
Não fique reclamando, praguejando e se lamentando.
Não se arrependa, aprenda.
Não espere as mesmas oportunidades que o passado já te ofereceu. Se um dia você esteve próximo de alcançar o que queria mas não conseguiu, construa outros caminhos para alcançar o que quer.
Saiba qual é o seu propósito de vida e permaneça nele.
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