quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Voltando ao mundo das cordas, captadores, riffs e distorções

Olá caríssimos leitores

Visto que há poucos dias atrás tomei uma decisão importante, qual seja, a de voltar a me dedicar ao instrumento que eu amo, que é a guitarra,  resolvi postar algo que expresse o que estou sentindo.

Nada mais justo do que buscar inspiração nos mestres. Portanto, segue uma lista abaixo de alguns dos guitarristas que eu busco me espelhar, seguida de comentários e algumas sugestões de músicas.

Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, do Iron Maiden
   












A começar pelos guitarristas da melhor banda de Heavy Metal que já pisou na Terra. Sim, eu estou falando do Iron Maiden. Muito embora os álbuns mais recentes tenham perdido o peso e a agilidade tão presentes nos golden years da banda (que foi, ao meu ver, de 1982 com o álbum The Number of the Beast até 1992 com Fear of the Dark), vários riffs e solos produzidos por estes guitarristas foram eternizados. Ouçam The Trooper, Run to The Hills, 2 Minutes to Midnight e Be Quick or Be Dead para uma pegada mais rápida, ou Hallowed Be Thy Name, The Evil That Men Do e Afraid to Shoot Strangers para um som mais melódico, recheado de duetos de guitarras e progressões.


Kirk Hammett e James Hetfield, do Metallica


            

















Donos da melhor performance do Rock in Rio 2011, juntos na mesma banda desde a expulsão do florzinha Dave Mustaine. Metallica é uma banda de Thrash Metal estadunidense, fundada por um anúncio de jornal feito por Lars Ulrich. A fase mais true é a que antecede os cânceres Load e Reload, ou seja, do Black Album pra trás. Ouçam Master of Puppets, One, Ride the Lighting, Seek and Destroy, Fade to Black, And Justice for All, Sad but True, Wherever I May Roam e, pra não falar que estou pegando pesado com os álbuns de 96 e 97, ouçam Fuel, mas não peguem a versão da Avril Lavigne!


Randy Rhoads, ex-Ozzy Osbourne




















Sem dúvida, uma das mortes mais trágicas do mundo do Heavy Metal. Randy Rhoads tocou ao lado de Ozzy Osbourne, e gravou 2 discos com ele: Blizzard of Oz e Diary of a Madman. Suas músicas mais conhecidas são Over the Mountain, Mr. Crowley, Crazy Train, Goodbye to Romance, todas de qualidade inquestionável. Randy faleceu aos 25 anos de idade num acidente de avião. Se hoje estivesse vivo, certamente seria um dos melhores guitarristas do mundo. E eu já ouvi falar de uma história que o Ozzy não chorou no velório do pai, mas chorou no velório do Randy...


Dimebag Darrell, ex-Pantera e Damageplan





















Outro que infelizmente já não está mais entre nós é o ex-guitarrista do Pantera e Damageplan, Dimebag Darrell. Poucos hoje conseguem fazer na guitarra o que ele fez: exímio usuário das pontes Floyd Rose, Dimebag mostrou seu talento em todas as músicas que compôs. Dentre as famosas pelo Pantera, estão Cemetary Gates, Cowboys From Hell, Walk, This Love, Revolution is my Name e Psycho Holiday. Dimebag foi assassinado em 2004 por um fan fanático durate uma apresentação pela banda Damageplan, 3 anos depois da saída de Phil Anselmo do Pantera, que resultou na dissolução da banda.


Emppu Vuorinen, do Nightwish















Eu tento ser um pouco seletivo quando o assunto é Metal Melódico. Mas confesso que é difícil achar uma banda igual a Nightwish. Postei o Emppu porque essa foi umas das primeiras bandas de Heavy Metal que eu tive contato. Pra ser mais específico, a primeira música que ouvi foi She is My Sin. Sim, o Emppu bola uns solos e riffs muito bons, como pode ser visto em Nightquest, Slaying the Dreamer, Passion and the Opera, Romanticide, Dark Chest of Wonders e outras.


Jimmy Page, do Led Zeppelin























Pra encerrar, nada mais justo que lembrar de um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Page foi inovador no seu estilo de tocar, misturando blues e baladas com riffs rápidos. Ao seu lado, colocaria Tommy Iommi e Ritchie Blackmore como responsáveis por criar o rock pesado que conhecemos hoje. Destaques para D'yer Mak'er, Babe I'm Gonna Leave You, Since I've Been Loving You, Tangerine, Black Dog, Stairway to Heaven e Houses of the Holy.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Rock in Rio: um evento sem muito rock...

Bom, depois de mais de um mês se algum post útil, resolvi perder alguns minutos da minha vida pra escrever sobre o evento que não quer calar: Rock in Rio.

Li várias notícias a respeito do evento, também vi algumas reportagens. Fiquei sabendo que a Katy Perry beijou um fã no palco e que a Cláudia Leitte foi vaiada. Mas não é exatamente a esse respeito que eu quero falar.
O que me intrigou e me fez pensar a respeito foi o título dessa reportagem: http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=55480

"O Rock in Rio começou ontem, mas já acabou".

No caso o ontem foi sábado, já que sexta-feira não teve muito rock...

Tudo bem, teve a Cláudia Leitte sendo vaiada. Era de se esperar: os caras colocam o show dela depois dos Paralamas e dos Titãs! Eu curto as duas bandas, conheço fãs dessas bandas e ninguém morre de amores pela Cláudia Leitte. Quem paga o ingresso pra ver um não quer necessariamente ver o outro, esse é o ponto. Se o estilo fosse mais homogêneo, tudo bem. Acho que quem ouve Katy Perry não vê problemas em ouvir Claudia Leitte também, e vice-versa. Injustiça feita com Titãs e Paralamas! Deviam ter tocado no sábado...

Se bem que sábado, pra mim, foi um dia podre. Por sorte o Capital Inicial salvou a noite. Aí vem a pergunta: não seria melhor colocar Titãs, Paralamas e Capital no mesmo dia, junto quem sabe com Skank ou Frejat? Ficaria mais homogêneo, não? E sem dúvida seria um show de muita qualidade. Se bem que não há problemas em colocar nacionais e internacionais juntos. Mas por que não colocar NX Zero e Glória pra tocar num palquinho bem afastado do público rockeiro? De preferência do lado de um precipício...

Aliás, o Glória foi a atração do domingo. Que vergonha! Quem organizou esse evento não tinha boas coisas na cabeça. Ainda mais por terem colocado o Sepultura no palco Sunset, junto com o Angra e Tarja Turunen. Ridículo. E alguém aí já ouviu Coheed and Cambria? Não estou questionando se os caras são bons ou não. Podem até ser, mas são muito desconhecidos, não mereciam estar no palco principal, e só fizeram um sucessozinho porque tocaram "The Trooper" da banda que mais fez falta nesse evento, o Iron Maiden...

Outra sugestão: uma noite começando com Angra + Tarja (assim os mais fanáticos não xingam o Edu de viadinho, melhor ele do que o Glória!!), seguida de Sepultura, Motorhead, Slipknot e Metallica. Seria uma legítima noite do METAL, que é o que tentaram fazer no domingo, mas não fizeram. Por sorte dos organizadores, essas 3 últimas bandas podem tocar até no deserto do Saara que fazem um bom show...
E quanto ao Matanza, certamente mereciam um lugar no palco principal. Que banda foda, imagina que irado seria ouvir Matanza e Motorhead no mesmo dia ou noite!!!

Acho que está tudo OK com os outros dias. Domingo que vem vai estar fera: Detonautas, Pitty, Evanescence, SOAD e Guns! Animal! Só pessoal bom. Ninguém corre o risco de ser vaiado (no máximo a Pitty se continuar com sua emotividade, mas enfim).

Não questiono aqui a legitimidade do evento. Rock in Rio tocando Ivete Sangalo, Rihanna e Shakira? Parece estranho porque não é rock. Mas também toca Ed Motta e Milton Nascimento que são caras muito bons... Eu perderia muitas horas falando "porquê NX Zero nao merece ser chamado de Rock, nem tocar no Rock in Rio", mas seria inútil, visto que os leitores desse blog tem bons gostos musicais.

Só um apelo (para o além): se continuarem colocando shows ruins e misturando bandas que não deviam misturar, sempre haverá músicos sendo vaiados e pessoas que evitam ir no show por não curtir a "diversidade" proposta pelo evento. Pode tocar bandas de estilos diferentes, não tem problema tocar metal melódico seguido de metal oitentista, ou tocar emozinho e chororô. O problema é misturar isso com axé, pop e outras coisas.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Direita versus Esquerda: uma reflexão

Acho lamentável a distinção que algumas pessoas fazem entre a direita e a esquerda política. Pra início de conversa, já não acho esses nomes suficientes pra taxar nem um discurso político qualquer, quanto mais um governo ou um partido. Há sempre alguns pormenores, algumas questões que sempre estão em jogo e que permanecem sem solução, seja para capitalistas ou socialistas.
Mas vejamos o célebre texto que ilustrou a caixa de entrada do meu e-mail:
Direita versus Esquerda
Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra.
Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
Compreensível a indignação, visto que é inerente ao que chamamos de esquerda uma valorização menor da liberdade em troca de uma maior distribuição de renda, erro ao meu ver fatal, o maior pecado dos sistemas não-liberais. Mas não é inerente à esquerda ser a favor do desarmamento...
Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne..
Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
Faz algum sentido isso? Quero dizer, TODAS as pessoas vegetarianas de esquerda fazem protesto contra os produtos à base de proteínas animais? E as outras pessoas de direita, centristas, apolíticas não podem ser vegetarianas e repreender as atrocidades cometidas contra os animais nos meios de produção?
Quando uma pessoa de direita é homossexual, vive tranquilamente a sua vida como tal.
Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
Mesmo migué que o de cima, mas vale a atenção pra um ponto: eu acho legítima a desobediência civil como um direito de resistência ou como forma de protesto. Se um grupo se sente prejudicado ou se acha que merece mais do que aquilo que a constituição lhe garante, tem todo o direito de sair às ruas, gritar, espernear, fazer barulho, interromper o sinal, desde que não se importe em ser taxado de baderneiro e que seja um "protesto honesto", sem violências e sem atitudes desnecessárias, como vandalismo. Um exemplo: parada gay.
Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade.
Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à Justiça do Trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
O pessoal da esquerda realmente é bastante baderneiro né? Pois eu já vi muito nego meter empresa no pau só pra ganhar dinheiro. E pior que isso, já vi nego ser literalmente explorado. E se vier algum troxa de direita me chamar de marxista, eu digo: nesse ponto, Marx estava certo.
Vou dar um exemplo que eu mesmo vivi. Trabalhava numa empresa maravilhosamente bem estruturada no município de Londrina, empresa essa que não precisarei citar o nome, e eu recebia um salário mínimo para trabalhar 36 horas semanais. E eis que com uma pequena (enorme) frequência meus supervisores me pediam para vir em reuniões fora do meu horário de trabalho. O engraçado é que não era um pedido, era uma chantagem: se eu não fosse, não teria o apoio deles numa possível entrevista para promoção, não teria ajuda para troca de horário ou dia de folga, etc. E a melhor parte: as reuniões, além de fora do horário de serviço, eram contadas como pró-atividade. Em outras palavras, simplesmente não eram remuneradas.
Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal.
Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. Se for o caso disso, uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
Isso é verossímil, digo, alguém já viu isso acontecer? Nem em novela, nem em livro, nem mesmo na televisão. Acho que nem aqueles que evitam falar com "mídias corporativistas burguesas" chegariam a esse ponto.
Quando uma pessoa de direita é ateu, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita.
Quando uma pessoa de esquerda é ateu, quer que nenhuma alusão a Deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o Islã (com medo de retaliações provavelmente).
Maravilha, tocou no ponto que eu queria. Eu não me considero de esquerda, e acho um absurdo qualquer alusão a Deus ou a outras divindades e religiões em algumas instituições públicas e políticas. Por exemplo, é ridícula a influência do cristianismo nas leis de um pais, como o Brasil, que proibia a união homoafetiva até pouco tempo atrás, e que (muitos acharão ruim) tem feriados para páscoa, dia da padroeira, natal. Para os mimimi, a lei nº 10.607 declara que 25 de dezembro é um feriado federal. Os outros são considerados, pela lei 9.093 "feriados locais", ou, em outras palavras, "feriados locais que são aceitos só num local: Brasil".
Também acho ridícula a existência de crucifixos em escolas públicas, ou mesmo hospitais públicos com nomes de santos e afins. Ir contra isso não quer dizer que sou contra a alusão de qualquer religião em outras esferas. Uma passeata a favor do cristianismo, embora tediosa, é legítima, tal como uma passeata a favor do ateísmo.
Mas isso envolve sérios problemas. O Estado é laico (ou ao menos é o que deveria ser), e o pluralismo é tão grande que deve-se garantir A PRIMAZIA DA JUSTIÇA sobre concepções particulares de bem. Em outras palavras, eu partilho do ponto de vista que é possível uma formulação elementar sobre o que é justo, e essa formulação não deriva de nenhuma concepção de bem particular, mas as antecede. Explicando de um modo ainda mais simples: um ateu pode ter uma opinião diferente de um cristão num debate sobre penas para homicidas, ou sobre a distribuição de camisinhas no carnaval. Isso não significa que não possamos tratar a ambos com os mesmos princípios de justiça.
Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados.
Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional.
Solidariedade nacional... Podemos substituir o direita e esquerda por rico e pobre? O termo "mesmo sem dinheiro disponível" não foi bem empregado, pois se o Estado se dispõe a oferecer a todos saúde pública (leia-se gratuita) e o indivíduo não tem condições de recorrer a uma consulta particular ou mesmo de pagar pelos seus próprios remédios, deve ele morrer por não ser capaz de comprar sua cura? Ou deve ele rancar dinheiro do cu, tal como fez o carinha da direita ali em cima, e comprar os remédios? Porque é muito interessante esse método, eu gostei bastante: se eu não tenho dinheiro pra comprar uma coisa e eu preciso dessa coisa, a solução simples é pegar dinheiro e comprar essa coisa. Vai entender.
Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais.
Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos proprietários são os responsáveis e punem o país.
Não, uma pessoa de direita não diz que é necessário arregaçar as mangas, ao menos não num primeiro momento. Ela diria que isso é um mal necessário: eu penso que uma sociedade capitalista/liberal sai na frente por garantir maior liberdade aos seus cidadãos. A liberdade é que deve ser a prioridade. Quer coisa mais triste que a sorveteria estatal cubana? Imagine você não poder escolher o que comer, o que vestir, aonde ir, o que fazer, como fazer, com quem fazer, quando fazer... Claro, eu particularmente conheço algumas pessoas que se dizem socialistas e que dão grande importância à liberdade, se aproximando muito de um discurso liberal: dois maconheiros, um de direita e um de esquerda, convergem no ponto de acreditarem que o Estado deve interferir o mínimo possível na vida particular do indivíduo.
Bom, após o desabafo, a razão disso. Eu fico indignado com preconceitos e preconceituosos, e como são feitas algumas inferências a partir de dados tão singulares. Esse texto mostra como o pessoal da esquerda é taxado de baderneiro, provavelmente devido à má expressão de algumas pessoas que se intitulam de esquerda. E não são só eles que sofrem, embora eu pareça demasiado compassivo, o mesmo acontece com gays, ateus, maconheiros, etc. Pensar assim não é só pensar de maneira preconceituosa (e burra), é ignorar a realidade dos fatos: a opinião política não determina (tal como tentou provar o queridíssimo acéfalo que escreveu esse texto) qual será o seu caráter, suas ações, seus pensamentos, seus amigos e seu futuro, mas pode (e deve, através da expressão dessas opiniões numa esfera pública) colaborar para a construção de uma sociedade mais justa.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um ateu, um agnóstico e um crente entram num bar...

Havia o escrito numa garrafa de cerveja: "não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"

O Ateu:
— Não existem fadas no jardim. Não as vejo, não as toco, não as sinto.

O Crente¹:
— Existem fadas no jardim. Não as vejo, mas elas falam comigo, eu as sinto e ouço suas vozes dentro do meu coração. Elas me tocam e eu sou abençoado por isso.

O Agnóstico:
— Não as vejo, não as toco, não as sinto. Elas não falam comigo, não me sinto abençoado. Mas há um limite para o que posso ver, ouvir, tocar, sentir. E sempre me restará a dúvida se há algo realmente por detrás desse limite.

E vem Descartes, meio bebâdo e gritando:
— Essa cerveja não existe e eu vou te provar!

E todos viveram felizes para sempre.

¹adj. e s., m. e f. Que, ou pessoa que tem fé religiosa. 2. Sectário (a) de uma religião.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Laicismo e Ciência

Algumas pessoas pensam que o laicismo prega exatamente o contrário do que a moral religiosa prega. E não é bem assim: o 5º mandamento diz "não matarás"; o Estado laico diz "não matarás". O que muda é a motivação exigida para tal ação, bem como a fundamentação de que quem mata deve ser penalizado.
Assim sendo, num debate jurídico-político-filosófico, não são aceitos argumentos como "porque Deus ao criar o homem..." ou "Exôdo 34, 28". Se discutirmos questões como aborto, união homo-afetiva, pesquisa células tronco ou referendo sobre armas, qualquer argumento dessa origem, mesmo que mascarado, é desqualificado.
É óbvio que não é isso que ocorre, visto que (1) as igrejas em geral ainda têm (e querem) uma participação política na sociedade, e (2) os valores pregados por elas são de tal forma incutidos na mente das pessoas que estas não conseguem separar entendimento moral religioso de entendimento moral comum. Além do que (3) (tal como vimos na última eleição) dizer ser a favor do aborto é o mesmo que pedir pra não ser votado.
Mas e quanto à ciência? Habermas propõe um debate interessante sobre a influência da ciência na vida das pessoas. Tais avanços são tão significativos a ponto de permitir a "fabricação" de um super-bebê. Por alteração genética, não teria os defeitos que nós temos. Em outra palavras, seu filho estaria livre de alergias, rinite, sinusite, propensão ao diabetes, ao câncer, a problemas cardíacos, etc. Se você fosse um desses bebês, ia achar ruim? Eu ia me orgulhar e teria mais motivos concretos para amar meus pais. A saúde é um bem desejável por si mesmo, e qualquer pessoa que negue isso tem algum problema. Outra coisa é a capacidade de escolher o sexo do bebê. Eu sinceramente não escolheria porque gosto dessa aleatoriedade, mas não vejo problema na legalização disso. Tirando que isso teria sérias consequências na taxa de natalidade, ainda vejo, tal como Rawls, que "cada pessoa é dona de uma inviolabilidade que nem o bem-estar comum da sociedade pode anular". Essa inviolabilidade é da propriedade do indivíduo, que corresponde a sua vida, sua LIBERDADE e seus bens.
Uma outra questão, mais polêmica e interessante, é sobre a pesquisa com células-tronco. Com tais células é possível curar cânceres, paralisias, doenças de Parkinson, Alzheimer, etc. E o motivo de serem proibidas é a suposta morte do embrião para a cura de outra pessoa. Pergunto: e se fosse um clone? Um embrião criado em laboratório com a única finalidade de fornecer tais células para a cura. Até onde sei, o embrião pode fornecer as células com 3 semanas. Nesse período, ainda não houve a separação entre ectoderme, mesoderme e endoderme, não havendo, portanto, tecido nervoso. Há quem diga que ainda não é uma vida, ou que mesmo sendo, não possui ainda um valor intrínseco.
Não tenho certeza do que penso, mas estou inclinado a crer que tais pesquisas e facilidades devem ser permitidas. Se você é contra, não faça uso: tal como os testemunhas e Jeová são contra a doação de sangue, os católicos contra a legalidade do porte de armas e os evangélicos contra a união homo-afetiva. Simples, não faça, não use, não seja. Mas não venha querer que o que você pensa ou crê deve ser estendido a todas as pessoas como uma lei universal.

Ps.: Gostaria, sinceramente, de ver argumentos contra e a favor do que eu disse. Se você é contra as pesquisas com células tronco, ou contra a alteração genética de bebês, expresse o que você pensa. E mesmo se você é a favor, corrobore seu pensamento. Tal debate só tende a exercitar seu senso crítico e sua habilidade argumentativa, além de enriquecer o blog.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Maturidade e maioridade

Kant diz:
"É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis." E os tutores, "depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranqüilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhes, em seguida, o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas. Basta um exemplo deste tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo em geral para não fazer outras tentativas no futuro." Trecho do texto Resposta à Pergunta: Que é esclarecimento?
Este pequeno trecho nos é útil para delimitar um tema que me propus a analisar: afinal, o que é maturidade? O que me permite taxar um indivíduo de maduro ou não? Há alguma relação entre a maturidade e a maioridade (ou idade adulta)?
É comum ouvirmos aquela conversinha de psicólogos e pedagogos que meninas amadurecem mais rápido que os meninos. Porque elas perdem o gosto pelas bonecas mais cedo, e de repente começam a achar tudo que os garotos da classe fazem como "infantil, tonto, besta e sem graça". Talvez haja alguma explicação científica para isso, mas o ponto é que ao meu ver, isso não é maturidade. Minha defesa começa sugerindo que nos acostumamos, no dia-a-dia, a empregar palavras de forma errônea, e maturidade é uma delas. Quando vemos uma criança saindo da infância e entrando na puberdade dizemos que está amadurecendo, mas não necessariamente é o que ocorre. Está crescendo, hormônios aflorando, mas ficando madura?
Se maturidade for entendida (tal como eu estou inclinado a acreditar) estritamente como uma capacidade de responder pelos seus atos, então ao menos as meninas que vemos nos seriados da televisão estão longe de serem maduras, visto que basta alguma adversidade se aproximar que elas correm para a saia da mamãe. Além do mais, a inconsequência é comum à maioria dos jovens, mas não à todos.
Chega desse converseiro mole. O ponto é que estamos inclinados (nem todos) a taxar uma pessoa de 30 anos que joga vídeo-game ou brinca no autorama de imatura, ou a acusar uma garota da faculdade que gosta de usar preto de ainda estar na adolescência, PORQUE ISSO NÃO É COISA DE ADULTO. Vejam que curioso, nosso senso comum diz que uma pessoa madura é aquela que faz o que normalmente uma pessoa adulta faz: trabalha, paga contas, é casada ou está em idade de se casar, trocou os carrinhos por um chopp com os amigos e as bonecas por livros do Dan Brown. Se veste de acordo com o que os adultos em geral vestem, vai para onde os adultos em geral vão, faz o que os adultos em geral fazem. Mas tem o outro lado desse "em geral", e se eu não vestir, ir ou fazer o que os outros "em geral" fazem, isso NÃO me dá a autorização para me taxar de imaturo.
Se você algum dia pensou em como seria bom poder ser criança por mais um dia, pra fazer o que você tem vontade de fazer (jogar vídeo-game, brincar de esconde-esconde, que é o que as crianças fazem) sem ser taxado de infantil ou IMATURO, eu sei bem como você se sente. Claro, a idade vai nos mostrando alguns "brinquedos" mais legais que carrinhos e bonecas, o que não quer dizer que tenhamos perdido o gosto pelos antigos. E sinceramente, gosto mais das pessoas que não seguem esse comportamento "geral", porque me dá impressão de sinceridade e espontaneidade.
Por fim, assinalo que uma pessoa na maioridade (seja penal [18+], seja idade adulta) não é necessariamente uma pessoa madura, tal como uma pessoa madura não está necessariamente na maioridade. Porque nada impede (ou nada deveria impedir) que uma garota de 16 anos, tal como vi no episódio 13 da 2ª temporada de House, assuma que foi ela que seduziu e fez sexo com o pai por interesses próprios, e não ele que a molestou, ou que uma pessoa adulta seja ainda inocente a ponto de não reconhecer a culpa do seus atos, mas pô-la nas pessoas ou na circunstância em que vive.
Partindo desse ponto de vista, não se preocupe se você se veste de preto, joga vídeo-game ou bolinha de gude, faz brincadeiras com os outros, é fã de história em quadrinhos ou gosta de subir na árvore. Se você é capaz de assumir a responsabilidade disso, você é uma pessoa madura. E livre.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Eu sou egoísta

Composição : Raul Seixas / Marcello Motta
Se você acha que tem pouca sorte
Se lhe preocupa a doença ou a morte
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de Deus, do mal
Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão
Se o que você quer em sua vida é só paz;
Muitas doçuras, seu nome em cartaz
E fica arretado se o açúcar demora
E você chora, cê reza, cê pede... implora...
Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho;
Eu quero é ter tentação no caminho
Pois o homem é o exercício que faz
Eu sei
Sei que o mais puro gosto do mel
É apenas defeito do fel
E que a guerra é produto da paz
O que eu como a prato pleno
Bem pode ser o seu veneno
Mas como vai você saber... Sem tentar?
Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou anti-socialista

Eu admito, você tá na pista

Eu sou ísta, eu sou ego

Eu sou egoísta
Eu sou

Por que não?


Fala sério, essa música... Uma das melhores letras que eu já li.
Não é de se estranhar, vindo do Raul... E a Pitty destrói na versão do Baú. Tudo bem que ela se vendeu para o lado emo, mas quando ela gravou ainda tinha sua integridade.
Para quem não conhece ou quer ouvir de novo essa obra-prima, segue o vídeo abaixo:

Miniatura

http://www.youtube.com/watch?v=FaUGVlLW5sc

sábado, 21 de maio de 2011

Epistemologia e o preonceito com a Filosofia

"Porque esse copo de cerveja, NÃO é um copo de cerveja e eu vou te provar!!!!"
Esse é o sarro que alguns amigos meus tiram depois de eu tentar explicar para eles o ceticismo metódico cartesiano. Também, eu mereço: conversar sobre Descartes na mesa de um bar, sábado a tarde bebendo cerveja em Londrina. Disso só duas coisas podem se inferir: ou é um papo entre filosofantes (pessoas estranhas), ou alguém vai ser zoado por falar tanta asneira, e nesse caso eu fui a vítima.
O que poucos sabem é que a filosofia não se resume à epistemologia e a questões metafísicas. Entenda-se por objetos metafísicos aqueles que não encontramos no mundo, apesar usarmos termos para denominá-los. Deus, alma, liberdade, justiça, belo, bem, etc. Raras exceções, ninguém encontra Deus na esquina e acena com a mão, ou liga pra justiça pra marcar uma balada. E a epistemologia é o ramo da filosofia que trata do conhecimento do mundo. Já disse há alguns amigos e, embora eu possa me arrepender do que direi agora, é o que sinto no momento: se não fosse pela ética, lógica e filosofia política, eu não faria filosofia.¹
Mas sem me desviar do objetivo inicialmente proposto, lançarei as bases para fundamentar que é a epistemologia (principalmente) a culpada por nós, estudantes de filosofia, sermos taxados de malucos. Vamos pegar o exemplo de Descartes. Ele próprio diz nas Meditações que não podemos ter certeza de nenhum conhecimento das coisas do mundo. Isso porque nossos sentidos nos enganam, não podemos ter certeza se estamos dormindo ou despertos e ainda, não temos certeza se não existe um Deus maligno, sacana e que se deleita em nos enganar. Disso resulta que é possível que os objetos exteriores a nós não existam. Esse monitor, esse teclado, suas mãos, pés, olhos, nada. Nem mesmo o copo de cerveja que eu falei lá em cima. A primeira certeza que temos é de que somos seres pensantes, e como nenhum Deus pode nos enganar sobre isso, então "penso, logo existo".
Que lindas palavras não é mesmo? Embora essa dúvida de Descartes seja passageira e necessária na sua filosofia, é suficiente para desmotivar qualquer pessoa, especialmente alunos do ensino médio, e pra incutir na mente deles uma segunda certeza. Se a primeira é "penso, logo existo", a segunda é "o filósofo Descartes é doidão".
E pra não dizerem que estou generalizando, vou falar de outro filósofo queridinho por muitas pessoas (inclusive por mim). Platão, fera. Vocês sabem que pra Platão os objetos que existem no mundo são "imperfeitos", mera cópia de uma idéia pré-existente no mundo das idéias. E a alma, antes de se encarnar nalgum corpo, se encontrava em contato direto com essas idéias, que representam a verdade. Ao encarnar, a alma se esquece da verdade e passa, através do corpo, a ter contato sensível com objetos que são cópia das idéias. E pra lembrar-se da verdade, somente pela reminiscência. Alguém poderia dizer: mas professor, então é só eu fumar um baseado que eu vou ter acesso às idéias?
Vai, vai sim. Terceira e quarta certeza: "o filósofo Platão é doidão" e "os filosófos são doidos". Acho que ninguém discordaria muito do que eu disse, porque é assim que as coisas acontecem. E eu nem parei pra falar de Leibniz e dos pré-socráticos, que parecem doidões até pra mim. No entanto, não espero não ser refutado, especialmente pelos meus colegas da filosofia. Mas eu peço, por fim, aos não-filosofantes que abandonem esse preconceito. Embora eu acredite que ele é justificável, há muito mais na filosofia além de doidices. A epistemologia têm um objetivo que é, ao meu leigo ver, o de mostrar até onde pode ir o nosso conhecimento. Embora eu ainda esteja na expectativa pra ver como isso é possível...


¹ Sim, eu me arrependi de ter dito isso. Os olhos só enxergam até onde alcançam, e o campo visual de um aluno (eu) de 2º ano de graduação da UEL não é lá muito amplo...