Muitas pessoas elogiam-na., o que causa-me profunda estranheza e, confesso, certa repulsa. Há quem diga que é preciso aprender a ser feliz sozinho, que é importante saber ser independente, não depositar a felicidade (seja lá como se conceba isto) em uma pessoa ou em um conjunto delas e outras frases do tipo. Não discordo, a priori, destes raciocínios, mas há uma premissa oculta aí. Creio que o prazer da própria companhia seja muito mais fácil de se apreciar quando raro ou desejado, como um copo de água fria num deserto. Certamente, quem, por forças alheias, vive cercado de pessoas tagarelando ao redor de si o tempo todo clama, com razão, por silêncio, espaço e reclusão. Mas há o clamor, mais raramente ouvido uma vez que exprimido em meio ao nada, por algum barulho. Por convívio, por diálogo, por união. Nisto Rawls acertara no centro do alvo. Não há quem sobreviva sozinho neste mundo. E, frequentemente, os fantasmas que visitam a mente sozinha são mais assustadores do que as ameaças do meio...
Que minhas palavras não nasçam nunca do esforço, mas da necessidade, e que em seu sangue corra a sinceridade e a espontaneidade deste que escreve.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 27 de março de 2020
Sobre COVID-19
Eu não ia me manifestar sobre a pandemia do COVID-19. Pensei (e, pra ser honesto, ainda penso) que não tenho muito a acrescentar sobre o assunto. A vida de todos está afetada e, por conta disso, já gastamos um tempo considerável dos nossos dias nos informando e ouvindo opiniões a respeito. Ocorre que, em meio a toda a discrepância quanto às medidas que devem ou não ser tomadas para combater a pandemia e minimizar seus impactos, muitos de nós (falo, inclusive, de mim mesmo) acabamos nos fechando numa bolha que não faz mais do que aumentar nossa ansiedade e corroborar as impressões e opiniões que inicialmente já tínhamos sobre o assunto. Como resultado, o "bom" e velho clima de guerra político nas redes sociais, típico de véspera de eleições, materializa-se nos feeds, que só mudam da insensatez para a insensibilidade, do radicalismo aos memes e de volta ao início do ciclo.
Não acredito que nós, progressistas, estejamos dando atenção suficiente às necessidades e ânsias de um dos grupos mais afetados pela quarentena: os micro e pequenos empresários, autônomos, donos de restaurantes, bares, cabeleleiros e prestadores de serviços em geral. Aqueles, suponho que uma parcela considerável da população brasileira, que trabalham durante o dia para ter o que comer no jantar. Sua renda, no virar da noite, foi do tudo ao nada, e não deveria surpreender a ninguém que uma ideia como a paralização completa de todas as atividades por, digamos, três meses, soe completamente absurda e impraticável a essas pessoas.
Por outro lado, a irresponsabilidade, para dizer o mínimo, da parte daqueles que desdenham do potencial destrutivo desta doença é um dos fatores que mais me faz perder a fé na humanidade. O último pico desta sensação foi anteontem, quando assisti ao pronunciamento do presidente da república. Seu discurso é uma resposta às ânsias e necessidades dos brasileiros, concilia a preocupação com a economia com orientações simplórias para a pandemia. E é, por esse e outros motivos, surreal. Desconsidera todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde, da medicina, da estatística, da ciência e do bom senso. Compara, mais uma vez, a COVID-19 a uma gripezinha, esnoba de uma das figuras mais iluminadas da TV e internet brasileira, o Dr. Drauzio Varella, e encerra sem dar nenhuma estratégia real de enfrentamento do problema, na contramão de todas as lideranças nacionais (governadores, prefeitos) e internacionais (demais chefes de Estado).
Me desculpem os esperançosos, mas isolamento vertical não basta. Vacinas não estão no limiar, remédios são, no momento, apenas uma aposta e a única certeza é que o distanciamento social é uma estratégia eficiente para evitar a propagação do vírus.
Também era de se esperar, especialmente depois do pronunciamento, que o estado de calamidade pública cairia, aos poucos, no descaso e na negligência, o que se percebe já hoje na maior movimentação das cidades e no posicionamento de alguns governadores solicitando o retorno gradual às atividades (MT, SC). Simplesmente decretá-lo sem nenhuma proposição, como faz o atual governo, é o mesmo que renunciar ao problema com os olhos abertos.
Não sou, como você sabe, especialista em vírus. Também não sou especialista em economia, muito embora aprecie o tema e me arrisque em algumas leituras mais especializadas. Entretanto, como estudante de ética e filosofia política, como cidadão e como ser humano, penso que todos os esforços deveriam, neste momento, ser empregados no combate a esta doença, isto é, em salvar o maior número de vidas e evitar o sofrimento do maior número de pessoas.
É óbvio que o impacto econômico da quarentena será gigantesco, há previsão de recessão para este ano e a perspectiva de crescimento nos próximos, que já era ruim, tornou-se pífia. Os números são, de fato, alarmantes, mas pior do que eles são os sentimentos de incerteza, insegurança e medo do futuro. Ainda assim, é preciso ter em mente que não é justo que, na iminência de uma catástrofe social, estejamos lançados cada um à própria sorte e sem o necessário amparo social. Com as devidas intervenções, economias se reestabelecem e dívidas se pagam, mas mortos não voltam à vida.
Depois de todas as grandes crises econômicas do capitalismo (crise de 1929, crises do pós-guerra, crise de 2008) os Estados interviram na economia para fomentá-la. Não era de se esperar que, diante da maior crise sanitária da nossa era, o mesmo fosse feito? A Câmara dos deputados aprovou ontem o auxílio de 1200 reais às famílias de trabalhadores autônomos, MEIs e desempregados, em proposta que segue para aprovação no Senado. É algo mas é muito pouco, tanto financeiramente quanto simbolicamente. Essa escassez de medidas contribui, a meu ver consideravelmente, na disseminação da insegurança e do medo que a muitos assola. "Muitos vão morrer de fome se a economia ficar parada", dizem. Os sentimentos que emergeriam seriam outros se houvesse uma ampla rede de proteção social aliada à participação ativa dos governos no amparo dos setores mais afetados. A falsa narrativa de que o Estado brasileiro está quebrado, aliada à postura ultraliberal do ministério da economia, não poderia ser mais incoerente com políticas intervencionistas, mesmo em um momento crítico, única circunstância na qual alguns liberais de bom senso acabam dando o braço a torcer admitindo que é hora de fazer algo.
Há, sim, que disseminar a ideia de que os encargos da vida social não devem recair sobre os menos favorecidos e que, por isso, o Estado deve atuar como aliado dos trabalhadores e empregadores na saída da crise iminente. E o que quero, na prática, dizer com isto? Que se instaure, por exemplo, vias de crédito em bancos públicos a juros zero (ou a juros negativos, como já era de praxe no exterior mesmo antes da pandemia) para que comércios e indústrias abram novamente suas portas e retomem suas atividades. Que se use parte do dinheiros das reservas internacionais na aquisição de máscaras, leitos, respiradores e demais equipamentos. Cortar altos salários do setor público? Dúvido que haja impacto financeiro considerável, embora o impacto simbólico talvez o seja. No médio e longo prazo, é preciso reestruturar o sistema tributário de modo de modo a torná-lo mais justo, taxando menos o consumo e proporcionalmente mais a renda de quem mais recebe. Devem-se taxar lucros e dividendos das grandes empresas. Devem ser taxadas as grandes fortunas e as grandes heranças. Há que se pensar em um desenho institucional que, ao mesmo tempo, fomente a concorrência e o livre mercado mas dissemine a renda, a propriedade sobre os meios produtivos e impeça a instauração de monopólios e oligopólios.
O mais importante agora era unir a população no entorno da causa do combate à pandemia, tomando medidas agudas para evitar o caos social e transmitir segurança para a população. Na prática, o que tem sido feito colabora mais para a polarização e disseminação do medo do que para quaisquer outros fins.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
A possibilidade de uma filosofia analítica de cunho existencial
Filosofar não é nada senão se debruçar sobre as questões mais vitais de nossa existência.
São essas as questões "mais importantes, mais apaixonantes, mais urgentes, mais lancinantes". Como diz Paul Valery, "os verdadeiros problemas dos verdadeiros filósofos são aqueles que atormentam e incomodam a vida."
"[...] o filósofo moral ou político não está habilitado a ditar normas e legislar. Ele deve contentar-se em ESCLARECER e SISTEMATIZAR nossas intuições morais - historicamente variáveis e socialmente determinadas -, e, assim, enunciar os princípios que "fundam" essas intuições, mas que, por outro lado, têm como fundamento último essas mesmas intuições: o fato, por exemplo, de que a injustiça nos revolte ou que a solidariedade nos exalte. É, com certeza, sempre possível afastar tais intuições como simples reações emocionais - o que, de resto, elas são -, como fatos puros. Mas também é possível aderir a elas e, explicitando as exigências que exprimem, formular princípios susceptíveis de nos orientar em nossas escolhas morais e em nossos engajamentos políticos.
O filósofo político dessa perspectiva [analítica] não tem a mesma missão de um tribuno ou de um profeta. Ele não tem o direito nem o dever de anunciar aos homens o que lhes incumbe fazer. A sua missão consiste em escrutar incansavelmente nossas intuições espontâneas sobre o que, em nossa sociedade, é bom ou mau, admirável ou intolerável - e esforçar-se, simplesmente, para lhes dar uma formulação que seja clara, coerente, sistemática."
Philippe van Parijs em O que é uma sociedade justa?
domingo, 23 de julho de 2017
Desamparo - vivência
Honestamente, foram poucas as ocasiões nas quais eu me senti "sozinho no universo" e senti verdadeira falta de uma força superior cuja existência e influência em nossas vidas é incompreensível. E não houve, nos últimos anos, sequer um dia que minha razão não tenha sido tentada a admitir a existência de um tal ser.
"Deve haver algo, pois se não houver, que sentido há na vida?"
Muitos de nós, desorientados, incumbem ao universo a ingrata tarefa de ter sentido. Você deve fazer sentido, vida, caso contrário não vales de nada. Outros vão mesmo além e requerem a justiça, mais como uma forma de engolirem a desgraça que vivenciam cotidianamente e não dispõem dos meios para corrigi-la do que propriamente como uma crença razoável e justificada.
Não há fraco que não encontre abrigo em discurso tão acolhedor, e felizes são os pobres e oprimidos, injustiçados e abandonados que desfrutarão dos impérios metafísicos. Mas que felicidade é essa? Uma felicidade fora da vida, uma felicidade que atualmente não se coloca senão em vestes maltrapilhas de esperança. Esperança, futuro, fora da vida.
Tristes de nós que, por vez ou outra, se encontram desamparados, sem essas muletas metafísicas para abrandar nossos sofrimentos. Mas não dependemos de forças extraplanares para confirmar nossa felicidade, não vivemos num teste para provar nossa dignidade de adentrar no paraíso, não guiamos nossa conduta por códigos que não colocamos a nós mesmos. Somos e tentamos ser felizes à nossa maneira, aqui, agora, e esforçamo-nos para que o agora valha a pena como se tivéssemos de retornar a ele eternamente.
Não há maior razoabilidade do que esta: como não há nada no além da vida, é na vida que devemos ficar. E focar. E se permitir sentir a dor de uma perda, o sentimento de injustiça, de desordem e incoerência, viver todos os paradoxos diários que apenas são vistos por nós como tais porque habituamo-nos a enxergar a vida com os olhos daqueles que querem mais do que nela está. Pois se não o fizéssemos, chamaríamos a tais fatos apenas de fatos, e nosso incômodo seria menor, talvez apenas o suficiente para nos impulsionar a transformar a vida e impor nossa vontade no mundo.
"Deve haver algo, pois se não houver, que sentido há na vida?"
Muitos de nós, desorientados, incumbem ao universo a ingrata tarefa de ter sentido. Você deve fazer sentido, vida, caso contrário não vales de nada. Outros vão mesmo além e requerem a justiça, mais como uma forma de engolirem a desgraça que vivenciam cotidianamente e não dispõem dos meios para corrigi-la do que propriamente como uma crença razoável e justificada.
Não há fraco que não encontre abrigo em discurso tão acolhedor, e felizes são os pobres e oprimidos, injustiçados e abandonados que desfrutarão dos impérios metafísicos. Mas que felicidade é essa? Uma felicidade fora da vida, uma felicidade que atualmente não se coloca senão em vestes maltrapilhas de esperança. Esperança, futuro, fora da vida.
Tristes de nós que, por vez ou outra, se encontram desamparados, sem essas muletas metafísicas para abrandar nossos sofrimentos. Mas não dependemos de forças extraplanares para confirmar nossa felicidade, não vivemos num teste para provar nossa dignidade de adentrar no paraíso, não guiamos nossa conduta por códigos que não colocamos a nós mesmos. Somos e tentamos ser felizes à nossa maneira, aqui, agora, e esforçamo-nos para que o agora valha a pena como se tivéssemos de retornar a ele eternamente.
Não há maior razoabilidade do que esta: como não há nada no além da vida, é na vida que devemos ficar. E focar. E se permitir sentir a dor de uma perda, o sentimento de injustiça, de desordem e incoerência, viver todos os paradoxos diários que apenas são vistos por nós como tais porque habituamo-nos a enxergar a vida com os olhos daqueles que querem mais do que nela está. Pois se não o fizéssemos, chamaríamos a tais fatos apenas de fatos, e nosso incômodo seria menor, talvez apenas o suficiente para nos impulsionar a transformar a vida e impor nossa vontade no mundo.
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Regozijo insignificante
Era uma vez um homem cujo maior anseio era responder à indagação mais (ir)relevante para a existência humana:
Como devemos viver?
Tendo vivido muito, eis que encontrou a resposta.
Infortúnio não lhe sobrar mais vida.
(E morreu).
Como devemos viver?
Tendo vivido muito, eis que encontrou a resposta.
Infortúnio não lhe sobrar mais vida.
(E morreu).
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Life Without You, por Stevie Ray Vaughan
Stevie Ray também é um profeta e anuncia a chegada de novos tempos, e lembra: viver no futuro traz ansiedade e preocupação; no passado, arrependimento e repulsa. Vivamos sem muitos passados e sem mutos futuros, no presente, como SRV nesta música, porque há muito mais deleite no que há do que no que já foi ou pode vir a ser.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
"O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você troca por isso."
E nós somos péssimos apostadores, porque investimos todas as nossas fichas (isto é, nossos dias, horas, minutos de vida, de atenção, de esforço físico e mental) em jogos que não sabemos se ganharemos.
E adivinhe só? Ou você aprende a ser feliz com pequenas apostas e pequenas ambições, ou você perderá sempre.
E adivinhe só? Ou você aprende a ser feliz com pequenas apostas e pequenas ambições, ou você perderá sempre.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Sobre a existência e suas bagagens
Será possível uma lógica que sobreviva à desconstrução existencialista (de um Nietzsche ou de um Sartre), justificada, ao menos, pelo seu uso? Será possível a estruturação de um ideal descompromissado da verdade, seja para a orientação da conduta, seja para a explicação do mundo? Será, de fato, intrinsecamente mal o anseio pela verdade ou, ao menos, pela retratação sistemática do mundo? É possível sobreviver ao ceticismo sem as mãos vazias? Que ganhos há, para a existência e para a filosofia, a desconstrução total? Não é ela tão infértil quanto o pensamento mais dogmático? É possível salvar alguma prescrição moral, ou estamos fadados à desorientação, ao amor à realidade incompreensível, à luta constante com a própria existência e às não tão próprias pulsões de vida e de morte, de criação e desconstrução, de movimento e de paralisia? E não haveríamos de negar, então, qualquer hierarquia de valores e de sofrimentos (dos chamados pobres de espírito aos eruditos) - que havemos de fazer com suas lágrimas? Se não podemos sequer escolher uma orientação, como manifestação de nossa própria vontade, que há de original no mundo? Ocupemo-nos menos de acordos alheios, e mesmo menos de nossos próprios... Sejamos apenas, e escolhamos nossas ferramentas para a existência, com as finalidades, os valores e as atitudes que lhes sejam inerentes. Distorçamo-las ao nosso bel prazer e vontade, ou deixemos que distorçam a nós, pois não é a normatização e a idealização da vida uma manifestação de nosso ser? E que mal há se escolhemos ou fomos escolhidos para jogar um jogo específico de regras: por que sempre esvaziar o espaço que está fadado a ser preenchido de algo?
quinta-feira, 2 de julho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
Dez Mandamentos
1. Não tenha certeza de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder evidências, pois a evidência deve ser exposta.
3. Nunca desista de um raciocínio que você esteja convencido de estar correto.
4. Quando você encontrar oposição, mesmo que seja de seu cônjuge ou
filhos, esforce-se para superá-la por argumentos e não por autoridade,
pois a vitória que se baseia em autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois para elas sempre haverá autoridades contrárias para serem encontradas.
6. Não use o poder para suprimir opiniões que você considera perniciosas, pois se o fizer as opiniões suprimirão você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em uma opinião, pois para cada opinião hoje aceita ela já foi excêntrica.
8. Encontre mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância
passiva, pois, se você valoriza inteligência como deveria, o primeiro
implica em uma concordância mais profunda do que o segundo.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois é mais inconveniente tentar escondê-la.
10. Não sinta inveja pela felicidade dos que vivem em um paraíso dos tolos, pois somente um tolo achará que isso é felicidade.
Bertrand Russell, Um Decálogo Liberal , A Autobiografia de Bertrand Russel, Vol. 3: 1944-1969, pp. 71-2.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Desamparo - conceito
"E, quando falamos de desamparo, expressão cara a Heidegger, queremos dizer apenas que Deus não existe, e devemos assumir todas as consequências disso. O existencialista se opõe fortemente a um certo tipo de moral laica que pretende suprimir Deus pagando o menor preço possível. Em 1880, quando professores franceses tentaram constituir uma moral laica, eles disseram mais ou menos o seguinte: Deus é uma hipótese inútil e custosa, vamos suprimi-la. Porém, para que exista uma moral, uma sociedade, um mundo que respeite as leis, será necessário que alguns valores sejam levados a sério e considerados como existentes a priori. É necessário que seja obrigatório a priori ser honesto, não mentir, não bater na mulher, criar filhos etc. Vamos, portanto, realizar um pequeno trabalho que permitirá mostrar que esses valores existem mesmo assim, inscritos em um céu inteligível, muito embora, por outro lado, Deus não exista. Dito de outra forma - e esta é, creio eu, a tendência de tudo aquilo que denominamos, na França, radicalismo -, nada mudará Deus não existindo mais; nós encontraremos as mesmas normas de honestidade, de progresso, de humanismo e teremos transformado Deus em uma hipótese ultrapassada que irá morrer tranquilamente e por si mesma. O existencialista, ao contrário, vê como extremamente incômodo o fato de Deus não existir, pois com ele desaparece toda possibilidade de encontrar valores em um céu inteligível; não é mais possível existir bem algum a priori, uma vez que não existe mais uma consciência infinita e perfeita para concebê-lo, não está escrito em lugar algum que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não se deve mentir, pois estamos exatamente em um plano onde há somente homens. Dostoiévski escrevera: 'Se Deus não existisse, tudo seria permitido'. É este o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, consequentemente, o homem encontra-se desamparado, pois não encontra nem dentro nem fora de si uma possibilidade de agarrar-se a algo. Sobretudo, ele não tem mais escusas. Se, com efeito, a existência precede a essência, nunca se poderá recorrer a uma natureza humana dada e definida para explicar alguma coisa; dizendo de outro modo, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontraremos à nossa disposição valores ou ordens que legitimem nosso comportamento. Assim, nem atrás de nós, nem à nossa frente, ou no domínio numinoso dos valores, dispomos de justificativas ou escusas. Nós estamos sós, sem escusas."
Jean-Paul Sartre em O Existencialismo é um Humanismo.
Jean-Paul Sartre em O Existencialismo é um Humanismo.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Desabafo/Frustração com a vida política 2015
Está escrito na Constituição Federal, Artigo 37, que "A administração
pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá [...]", dentre outros
princípios, aos da moralidade e da eficiência. Resta comprovado,
contudo, que no Brasil, no que compete a TODOS os entes federativos
(isto é, da esfera federal à municipal), a prestação de serviços
públicos está a anos luz de seguir os princípios supracitados. No Paraná,
um governo que alega falta de dinheiro é, ao mesmo tempo, o que possui o
maior número de cargos comissionados. E não bastando a truculência no
trato de seus educadores e a postura antidemocrática para aprovação de
uma lei cujas consequências aos cofres públicos a longo prazo serão
devastadoras, obriga-nos agora a testemunhar uma mentira deslavada, uma
ofensa sem precedentes à inteligência e à importância dos professores
deste estado.
Enquanto isso, em âmbito federal, o governo aliado dos trabalhadores é incapaz de pôr fim ao fator previdenciário mas não titubeia ao sancionar uma lei que põe fim a alguns direitos trabalhistas tão arduamente conquistados (me refiro à reformulação do seguro-desemprego, em prol da saúde dos cofres públicos). O discurso proferido nos debates dos presidenciáveis favorável à taxação das grandes fortunas resta agora apenas na memória daqueles "velhos ingênuos", partidários e defensores do mal menor.
Nossos legisladores, por outro lado, em nome dos bons costumes e da família tradicional brasileira se esforçam arduamente por uma regressão política travestida de reforma, aprovando a redução da maioridade penal, por vias autoritárias o financiamento privado de campanhas políticas, o "bolsa-esposa-de-deputado-viaja-de-avião", sem falar no insulto à laicidade do Estado (e aos próprios valores cristãos) quando, antes de tais decisões, rezam e pedem a iluminação de Deus...
Diante de tal quadro, não surpreende que ideias de cunho anarquista/miniarquista/neoliberal tomem formas tão sedutoras! O Estado brasileiro conduz-se tanto na direção oposta de suas incumbências que chega a suscitar dúvidas, mesmo nos "esquerdistas", se o capitalismo, em sua forma mais nua, crua e cruel (ou seja, aquela nunca vista em terras tupiniquins) não atenderia melhor às nossas expectativas de justiça...
Resta comprovado, também, que o Brasil não segue nem a direção de um Estado amplo, sustentável e eficiente, nem as vias da liberdade econômica e da iniciativa privada. São nestes trilhos de curvas conservadoras, antiliberais, antidemocráticas, ineficientes e injustas que "segue o nosso bonde". Mas bobo mesmo é o Tiririca que acha que pior que tá num fica...
Enquanto isso, em âmbito federal, o governo aliado dos trabalhadores é incapaz de pôr fim ao fator previdenciário mas não titubeia ao sancionar uma lei que põe fim a alguns direitos trabalhistas tão arduamente conquistados (me refiro à reformulação do seguro-desemprego, em prol da saúde dos cofres públicos). O discurso proferido nos debates dos presidenciáveis favorável à taxação das grandes fortunas resta agora apenas na memória daqueles "velhos ingênuos", partidários e defensores do mal menor.
Nossos legisladores, por outro lado, em nome dos bons costumes e da família tradicional brasileira se esforçam arduamente por uma regressão política travestida de reforma, aprovando a redução da maioridade penal, por vias autoritárias o financiamento privado de campanhas políticas, o "bolsa-esposa-de-deputado-viaja-de-avião", sem falar no insulto à laicidade do Estado (e aos próprios valores cristãos) quando, antes de tais decisões, rezam e pedem a iluminação de Deus...
Diante de tal quadro, não surpreende que ideias de cunho anarquista/miniarquista/neoliberal tomem formas tão sedutoras! O Estado brasileiro conduz-se tanto na direção oposta de suas incumbências que chega a suscitar dúvidas, mesmo nos "esquerdistas", se o capitalismo, em sua forma mais nua, crua e cruel (ou seja, aquela nunca vista em terras tupiniquins) não atenderia melhor às nossas expectativas de justiça...
Resta comprovado, também, que o Brasil não segue nem a direção de um Estado amplo, sustentável e eficiente, nem as vias da liberdade econômica e da iniciativa privada. São nestes trilhos de curvas conservadoras, antiliberais, antidemocráticas, ineficientes e injustas que "segue o nosso bonde". Mas bobo mesmo é o Tiririca que acha que pior que tá num fica...
domingo, 2 de novembro de 2014
Com você
Queria aqui poder falar de qualquer coisa, da simplicidade e da maravilha que é ser um ser humano, que é amar, chorar, sofrer, respirar, sonhar, sorrir. Queria aqui poder falar do mundo que brilha diante de nós e que nos faz brilhar, dos seus encantos e dos cantos encantadores de um passarinho escondido embaixo da janela, ou da sua voz fina e desafinada que vez ou outra arrisca sem perceber alguns versos de amor, ou mesmo daquela canção maravilhosa que ocupa a nossa mente quando ocupamos as nossas bocas com os nossos beijos.
"I think you better close your eyes and let me guide you into the purple rain" Eu só queria ver você se molhar nas águas daquela chuva que nos escondemos sob os cobertores apertados da minha cama...
Eu queria aqui poder falar das infinitas memórias que lutam bravamente contra o tempo e permanecem vivas e sólidas em nossas mentes. Ou mesmo falar da estranha sensação de ver, na mesma pessoa, alguém totalmente diferente do que havia visto no primeiro dia. No nosso caso, as impressões permanecem, e não apenas as primeiras, e que permaneçam para sempre (exceto as marquinhas de dente e alguns pequenos e imperceptíveis roxos no pescoço).
Nossa história foi e é assim; quebramos regras e paradigmas e fazemos o que, supostamente, não deveríamos. Fomos ao cinema sem os nossos pais saberem com quem estamos só para termos o prazer de se beijar no escuro enquanto alguns gritos e suores escorrem na tela do cinema; teríamos nossos próprios gritos e suores refletidos nalguns espelhos suspensos tempos depois, mas naquela noite tudo ficou maravilhosamente bem com um ''eu adoro você, sabia?''.
Éramos proibidos desde o começo, um estilo de Romeu e uma Julieta bastante moderninho, embora fãs do flerte à moda antiga, da fantasia tolkieniana, da filosofia e da vida simples e despreocupada. Gostávamos mesmo era de rir e de cair na grama, e o mundo podia mesmo era acabar ali. Você gostava de implicar com meu boné e elogiar a minha barba e o meu cabelo estranho, enquanto eu me restringia a tentar te beijar em cada esquina e em cada mínima oportunidade.
Era mágico ter você perto de mim. Foi mágico quando a encontrei toda nerdzinha estudando nas mesinhas da UTFPR, com uma réguinha de cachorro que fui obrigado a pegar pra te zoar. Talvez até tenha sido ali que eu constatei que um dos maiores prazeres da minha vida é o de te perturbar e pentelhar.
Foi igualmente mágico quando você disse pra eu não desistir de nós só porque alguém dizia que nós não podíamos ficar juntos. Foi ali, enquanto estávamos sentados no chão gelado do hall da universidade, que eu me senti amado verdadeiramente pela primeira vez na vida. Não havia ouvido, ainda, um eu te amo da sua voz aveludada, mas se hoje sei que amar é também colocar o fardo de outra pessoa nas próprias costas e incentivá-la, tirando forças da alma para fazê-la ir adiante, é porque com meia dúzia de palavras e gestos você me ensinou.
Mas tudo isto aqui, mulher, são só palavras. Eu não vou conseguir falar muito sobre qualquer coisa, porque a barreira do sentir e do dizer me impede, e ainda que fossem a mesma coisa, tantas palavras eu precisaria eu pra descrever a coisa mais simples e mais sublime, que é olhar para o seu rosto enquanto seus olhos brilham e você sorri.
E é então com breves palavras que eu descrevo uma tragédia. Fomos arrancados dos braços um do outro abruptamente, separados pela distância e pelo destino. Fragilizados, buscávamos nos recompor como podíamos, mas nem sempre as coisas aconteciam como antes. Via seu lado ruim, aquele lado que vai além do chulé da sua meia, e você se incomodava mais que de costume com a minha mania de ciumento e de reclamão. Brigávamos, gritávamos e chorávamos, indignados. Brigávamos tanto, não só um contra o outro mas principalmente contra o nosso amor, que chegamos mesmo a pensar que o tínhamos vencido e que era hora de abandonar o ringue. E ele caiu uma, duas, três e tantas vezes.
Mas há um ''quê'' de lógica no amor. Não se abate o imbatível, não se destrói o invencível, não se mata o que insiste em renascer das cinzas.
E como a ave fênix, ele vem lançar vôo sobre nós novamente. A diferença é que, agora, o enxergamos. Cansados, feridos, meio que o domamos. Esperançosos, sabemos que podemos voar lá para as terras onde felizes são os que se deixam cair pelas gramas da praça. E muito além.
E por isso eu te peço, mais uma vez, que venha. Que venha comigo, que segure a minha mão firme o suficiente para não soltá-la, ainda que pareça inevitável. Porque ainda que solte, eu continuarei a segurar a tua para que possamos voar juntos. Porque me foi dito, uma vez, que para ir adiante são necessários sacrifícios, e que não devemos deixar de voar porque pessoas, ou o tempo, ou o destino, ou o que quer que for tenha dito que não devemos.
E eu quero voar com você para a última das estrelas que nós encontrarmos no céu. Não para, com ela, ter uma lembrança tua, que certamente seria especial, mas para, do seu lado, nela fazer moradia. E deitar, e sonhar, e sentir e viver, tudo outra vez. Com você.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
O enunciado da propriedade e o legislativo
O estabelecimento da propriedade, para alguns filósofos, dá-se assim: apropria-se de algo e, na sequência, exclama-se o direito. Declara a obrigação de todos os outros indivíduos a respeitarem-no, sem que, todavia, tenham sido consultados para o seu estabelecimento. O paradoxo deste ato reside na reivindicação um direito que diz respeito aos interesses alheios e que cuja fundação ignora-os. Tal declaração se assemelha muito a daqueles funcionários do legislativo, que declaram o aumento dos próprios ganhos sem que, contudo, este aumento passe pelo crivo de quem os sustenta.
Tais atos não apenas desprezam os outros indivíduos em seus interesses, mas impõe sobre eles obrigações que, muitas vezes, seriam prontamente rejeitadas. Se assim o é, não há legitimidade na propriedade unilateralmente estabelecida e no aumento de benefício de uns sem o consentimento dos mais prejudicados.
Tais atos não apenas desprezam os outros indivíduos em seus interesses, mas impõe sobre eles obrigações que, muitas vezes, seriam prontamente rejeitadas. Se assim o é, não há legitimidade na propriedade unilateralmente estabelecida e no aumento de benefício de uns sem o consentimento dos mais prejudicados.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
"Fatos morais"
Hoje à tarde, antes da vexatória eliminação da Espanha na Copa do Mundo, eu e minha mãe conversávamos sobre as reformas na cozinha de casa: uma nova pia, um novo balcão, um novo fogão e um novo armário. Minha mãe, uma dona de casa cristã de 57 anos, discursava com alegria sobre o fato de estar renovando o ambiente mais movimentado e importante da casa. Comentou, inclusive, que fez alegre também a "mulher do lixo reciclável", que sempre passa por aqui pra recolher papelão e, de brinde, leva roupas usadas. Desta vez, foi premiada com um fogão e um armário de muitos anos de cozinha.
O curioso é que, na sequência, a expressão do rosto de minha mãe mudou de alegre para séria com um toque de tristeza. Comentou sobre a pobreza da senhora e sobre a existência de pessoas que se satisfazem muito com o que, para nós, é lixo. "Eu fico triste com isso. Nós devíamos todos poder ter as nossas coisas com igualdade" ela diz, talvez sem perceber a profundidade de suas palavras. Eu, tocado, me limito a responder um "É nisso que eu acredito, minha mãe. É nisso que eu acredito..."
Dias antes, numa das mesinhas do CFH da UFSC, eu, um italiano e um uruguaio discutíamos sobre neoliberalismo e sobre as crises inerentes ao capitalismo (estávamos no intervalo de uma aula sobre Marx). O torcedor da Celeste, também de inspiração rawlsiana, se limitara a dizer que "hoje, se você é partidário do neoliberalismo, você não é apenas irracional, você é uma pessoa má-intencionada". Uma frase curta mas que faz sentido, uma vez que é a ausência de controle do mercado e das transações financeiras que gera crises como as de 1929 e de 2008. E a consequência de tais crises não poderia ser mais óbvia: desemprego, instabilidade política, pobreza, miséria, fome...
Comentário que me fez lembrar, claramente, do libertarismo de Nozick que, embasado numa doutrina do direito natural, alega a ilegitimidade de políticas públicas de ensino, de saúde, de distribuição de renda. Um argumento que cria um abismo entre os âmbitos ético e jurídico, entre o que é dever de um indivíduo e o que é lícito a um Estado obrigar.
Muitas objeções poderiam ser feitas a tal doutrina.
Uma de índole rawlsiana é aquela que foi apresentada no Bar de Harvard: não há um direito natural à propriedade, você tem o que você tem apenas porque outros indivíduos, em suas ações, consentem a um conjunto específico de regras que lhe confere títulos de proprietário disso e daquilo. Tal consentimento é, muitas vezes, uma restrição dos interesses de mais alto grau destes cidadãos - abrange, inclusive, a limitação de acesso aos bens mais básicos para a sobrevivência e para uma existência minimamente digna.
Você tem o que você tem por razões históricas que não se fundamentam numa verdade transcedental, no direito divino dos reis, no legitimidade jurídica da herança e da transferência de titularidade...
Impossível também não lembrar de Marx e Engels, que rejeitariam o libertarismo por se tratar, em última instância, de um revestimento de interesses pessoais, da intenção da burguesia de manter seu status de classe dominante e os luxos que a acompanham.
Para mim, no momento, basta acreditar na falsidade do neoliberalismo - nem preciso ir além e, apelando para sua metafísica, alegar uma pretensa universalidade destituída de sentido.
E eu, ao final de tudo, mesmo não sendo um realista moral, tive uma intuição: nós, enquanto pessoas e enquanto cidadãos, temos o DEVER ÉTICO de fazer vigorar instituições políticas, leis e ações afirmativas que promovam a igualdade de renda, a saúde e a educação públicas e de qualidade, a geração de empregos, a garantia de moradias na área urbana e distribuição de terras na área rural, em poucas palavras, instituições que garantam não só o mínimo para a sobrevivência, mas o necessário para uma vida com dignidade e lazer, numa sociedade onde o sentimento de respeito mútuo e de cooperação recíproca exista e que possibilita a seus cidadãos realizar seus planos racionais de vida no mais alto grau.
domingo, 25 de maio de 2014
Peço desculpas, e com sua licença...
Se somarmos o reconhecimento de uma autonomia capaz de romper com a inércia dos acontecimentos, o reconhecimento de um dever (ou de um conjunto de deveres) que deveriam ser seguidos caso se desejasse se tornar um ser humano mais perfeito, a fraqueza da vontade em fazer o que se deve, a imaturidade de um homem, sua capacidade de ferir os outros e um retrospecto de erros e de culpa teremos, no final, uma pessoa refreada. Contida, divagante e irresponsável, que antes de suas ações (contrárias aos deveres que racionalmente aceita) pede licença, e depois, desculpas. "Eu não deveria fazer esta bagunça toda, mas esteja avisada, e com sua licença, eu farei. Fiz, agora perdoe-me porque sou fraco."
O grau de irresponsabilidade e de falta de vergonha na cara destas atitudes é tão grande que sequer me arrisco a mensurar. Não é coragem desrespeitar os deveres, é algo mais próximo da temeridade e da inconsequência. É errado, mas mesmo que não concebamos deste modo. Condenáveis ou não, tais atitudes conduzem à Dor. Dor que não se descreve, que não se compartilha, que as palavras, sempre distantes e insuficientes, teimam em não esgotar.
A Dor é tanta que é capaz mesmo de virar o jogo: e se, na verdade, o que se dá não é a fraqueza de um eu perante seus deveres, mas a força incomparável de sentimentos que teimam em existir? E se a racionalidade consistir exatamente em seguir esses nossos instintos, desejos e paixões selvagens e animalescas, ao invés de um plano de vida que foi deslealmente depositado (talvez por nós, talvez pelos outros) sobre nossos ombros? E se a maturidade não significar fazer o que se deve, mas controlar o que se sente (o que se permite sentir)?
Divagações não impedem ações.
E nestes tempos de escassez de comunicação ainda há aqueles que admiram a sinceridade explícita de um olhar, a magia de um caminhar de mãos dadas, a espontaneidade dos sorrisos que presenteiam o dia a dia. E talvez por admirar o viver simples, a sintonia de almas e estas coisas que só faz quem quer viver e sentir (como bagunçar um quarto, um coração e uma vida) é que o divagante acaba sendo também um agente. Um bagunceiro, bagunçado e inquieto, feliz e triste, um inconstante dos mesmos sonhos. Impaciente, carente, distante e barulhento. Um mal perdedor que quer ganhar o jogo da vida.
Um esperançoso.
domingo, 23 de março de 2014
As sopas da verdade: cozidas, recozidas, enlatadas
"Aqueles que parecem mais preocupados com o que há de mais profundo, esses poderão decerto dizer que a forma é algo de exterior e alheio à natureza da coisa, e esta é tudo o que importa; poderão dizer que a missão do escritor, e sobretudo do filósofo, é descobrir verdades, afirmar verdades, divulgar verdades e conceitos válidos. Mas, se depois de os ouvir, formos verificar como na realidade cumprem essa missão, o que encontraremos será o mesmo velho palavreado, cozido e recozido. Terá esta ocupação o mérito de formar e despertar sentimentos, mas antes deverá considerar-se como uma agitação supérflua. 'Têm eles Moisés e os profetas; ouçam-nos' (Lc 16,29). O que sobretudo nos espanta é o tom e a pretensão que assim se manifestam, como se o que sempre tivesse faltado no mundo fossem esses zelosos propagadores de verdades, como se a velha sopa recozida trouxesse novas e inauditas verdades, como se fosse sempre 'precisamente agora' a ocasião de as ouvir. Por outro lado, verifica-se que um lote de tais verdades propostas aqui é submergido e abafado por outras verdades da mesma espécia divulgadas ali. Como é que se pode distinguir dessas considerações informes e infundadas o que nesse turbilhão de verdades não é velho nem novo, mas permanente?"
Um heraclitiano rejeitaria a possibilidade desta distinção: há sempre velho e sempre novo, nada permanece senão a mudança, e sem se comprometer com a existência ontológica ou fenomenológica do mundo, cremos: tudo flui. E se reclamarem a veracidade ou a importância de uma indagação mais profunda a esse respeito, cito Hume: "Feliz de nós se temos a consciência de nossa temeridade quando tentamos aprofundar nesses sublimes mistérios e, abandonando uma cena tão repleta de dificuldades e obscuridades, retornamos, com decorosa modéstia, à nossa província própria e verdadeira, que é o estudo da vida ordinária (ou o simples viver), onde não nos faltarão problemas com que entreter-se, sem termos de mergulhar num oceano ilimitado de dúvidas, incertezas e contradições..."
segunda-feira, 17 de março de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
A maldição do analiticismo
Quando vem a palavra a um divagante livre de jogos de linguagem ele simplesmente a solta. E o analítico puro, em verdade, não o faz deste modo. Este carece duma clareza refinada que vai além do que o simples português pode oferecer. Ele dá nomes, procura regras, impõe condições e critérios de sentido. O analítico está, todos sabemos, tão ligado àqueles seus encostos que sequer considera cabível a existência de outros. Dentre os piores, cito aqueles prolixos e proselitistas que creem ter o mundo na palma das mãos.
E despropositadamente, se puder fazer a analogia da caverna que eles adoram, aqui jaz um deles que, cansado de seus encostos, soltou não de todo as suas amarras e passou a dançar com elas. Não foi à luz, mas foi a janela de sua casa numa noite qualquer e encantou-se o suficiente.
A maldição do analítico não reside em reivindicar a posse da verdade, ou novamente o mundo na palma das próprias mãos, mas apenas em querer ser entendido.
E no instante em que voz escreve, o amaldiçoado irrita-se com a facilidade que lhe aparentam a poesia e a filosofia.
Numa, entendidas as regras, tudo se faz claro e certo e compreensível. Encostável.
Noutra, sem regras, tudo se faz em palavras maravilhosamente.
Difícil, na primeira, são estabelecer as regras. Os filósofos - aqueles que vemos - carecem de público: a própria atividade nasceu numa praça pública. Em sua maioria escrevem para alguém, e mais, dependem de seus alguéns e feedbacks. Amantes das notas, dos números e dos critérios, encostam-se naquilo que se torna, para suas próprias vidas, fundamental - não à toa admiram com tanta soberba suas próprias criações e ilusões.
Na poesia, é dito que não há público alvo. Que o leitor seja responsável pelos sentimentos que advém das palavras e pelo significado que as impõe. A poesia fácil é a sem regras, é a prosa descompromissada. É a que se acha ao redor.
Com o poeta soberbo e amaldiçoado pelo analiticismo se passa que não contenta-se com as regras rígidas d'uma nem com a ausência de público d'outra. Carece-lhe ser entendido e, ao mesmo tempo, o poder para regular suas palavras à maneira maravilhosa da poesia. Fica, portanto, divagando, disforme, e tão estupendamente estufa o peito quando lhe chamam "poeta" que seu ego vai às alturas, cheio de nada. Cheio de lacunas, tão apressado é ao tentar descrever um sentimento momentâneo usando palavras pomposas e encantadoras que conhece, quase numa tentativa de eternizar o provisório e contingente.
O poeta analítico ainda quer as regras, ainda quer os encostos, ainda lhe são belos. O poeta analítico ainda ama o português por si mesmo, ainda contenta-se na filosofia mas ainda crê na sublimidade do simples. Com medo, mais, de não ser compreendido, ele cala, sem tempo, sua mente divagante.
Da prematuridade à eclosão duma sombra
(...)
Hoje a noite marca-se vazia; profundo e ressoante apenas o silêncio que já quase inexiste.
Se a noite carece de amor, por amor ou por dor permanece insólita e fria. Carente de poesia. Carente de mundo e cansada de vida mal vivida. Não vazia, exaurida.
Hoje a noite transfigura-se noutra, menos amarga, dum calor quase acolhedor. Inexpressível e incompreendida, mas agora presente. Hoje a noite toma a forma duma dor que não existe, que não se permite. A forma da dilaceração?
Na noite se apresenta a sombra pouco severa dum dilacerado sem forma. Divagante, pouco errante, amante e vivente. Novamente presente e agora sempre um passo à frente. Sem caos, sem esperança, sem frustração: um soberbo indomado.
Hoje a noite é outra. É das estrelas amarelas e incandescentes, insuficientemente distantes, brilhantes sem o querer de quem as vê. Hoje o vento noturno é genuíno e faz balançar as folhas do pinheiro e o coração de um homem solitário. Mas não sozinho, sem permissão. A solidão exige algo que não se configura já...
Hoje, a noite jaz no aguardo desesperançado do inexistente.
Hoje a noite marca-se vazia; profundo e ressoante apenas o silêncio que já quase inexiste.
Se a noite carece de amor, por amor ou por dor permanece insólita e fria. Carente de poesia. Carente de mundo e cansada de vida mal vivida. Não vazia, exaurida.
Hoje a noite transfigura-se noutra, menos amarga, dum calor quase acolhedor. Inexpressível e incompreendida, mas agora presente. Hoje a noite toma a forma duma dor que não existe, que não se permite. A forma da dilaceração?
Na noite se apresenta a sombra pouco severa dum dilacerado sem forma. Divagante, pouco errante, amante e vivente. Novamente presente e agora sempre um passo à frente. Sem caos, sem esperança, sem frustração: um soberbo indomado.
Hoje a noite é outra. É das estrelas amarelas e incandescentes, insuficientemente distantes, brilhantes sem o querer de quem as vê. Hoje o vento noturno é genuíno e faz balançar as folhas do pinheiro e o coração de um homem solitário. Mas não sozinho, sem permissão. A solidão exige algo que não se configura já...
Hoje, a noite jaz no aguardo desesperançado do inexistente.
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